Impactos do Acordo Mercosul-União Europeia na Indústria Brasileira

O acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, aprovado em janeiro de 2026 após mais de 26 anos […]

O acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, aprovado em janeiro de 2026 após mais de 26 anos de negociações, criará uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, reunindo cerca de 720 milhões de pessoas e PIB combinado superior a US$ 22 trilhões. O acordo, que ainda carece da aprovação do Parlamento Europeu, trará impactos assimétricos entre setores, com ganhos imediatos para o agronegócio e oportunidades de modernização para a indústria, ao mesmo tempo em que impõe desafios competitivos aos segmentos tradicionais.

Segundo a Logcomex, o Brasil exportou um FOB total de US$49,8 bilhões em 2025 para a União Europeia. Este valor representa um aumento de 3,1% em relação ao mesmo período do ano anterior. Em contrapartida, as importações cresceram mais de 6%, fechando o ano com US$ 50,3 bilhões de produtos importados europeus desembarcando no Brasil.

Compreender quais setores se beneficiam – ou acendem um sinal de alerta – com este novo acordo é fundamental para analisar oportunidades e ameaças para o comércio exterior brasileiro em 2026.

Setores com impacto positivo

Agronegócio: ganhos imediatos e expansão de mercado

O agronegócio brasileiro emerge como o principal beneficiado, com eliminação de tarifas para 77% dos produtos agropecuários exportados ao bloco europeu. A União Europeia já representa o terceiro maior destino da soja brasileira (US$ 6 bilhões em 2025) e sexto maior para carne de frango (US$ 457,99 milhões), ao passo que, para carnes bovinas, a China detém o posto de principal destino, seguida pelos Estados Unidos e justamente pela União Europeia.

Principais produtos beneficiados:

ProdutoImpacto esperadoCronograma
Carnes bovina, suína e frangoAcesso preferencial com cotas tarifárias de 99 mil toneladas para bovina; ampliação de mercado para avesTarifas reduzidas imediatas dentro das cotas​
Café (torrado e solúvel)Eliminação completa de tarifas; maior valor agregadoRedução gradual em 4-10 anos
Suco de laranjaRedução de 50% das tarifas; ganho de competitividadeRedução em 7 e 10 anos
Soja, milho e sorgoIsenção imediata para 1 milhão de toneladas; diversificação de destinosIsenção imediata com ampliação gradual​
EtanolCota de 450 mil toneladas para uso industrial; 200 mil para outros usosIndustrial: isenção imediata; outros: redução progressiva​
Frutas frescasTarifas zeradas para abacate, limões, melões, uvasEliminação em 4-10 anos
AçúcarRedução gradual de tarifas apesar de salvaguardasCronograma de liberalização progressiva​
Celulose e papelAmpliação de competitividade no mercado europeuTarifas reduzidas imediatamente

Indústria de transformação: modernização e acesso à tecnologia

A indústria brasileira receberá estímulo significativo por meio da desoneração de insumos e bens de capital europeus, viabilizando a transformação do parque industrial. Em 2025, 98,8% das importações brasileiras da UE (US$49,7 bilhões) já eram bens industriais.​ 

Com forte impacto nos importados do setor farmacêutico, a União Europeia, que enviou mais de US$7 bilhões de fármacos em 2025 (aumento de 12,7% em relação a 2024), pode se beneficiar da abertura de comércio para o Brasil.

Setores industriais beneficiados:

SetorBenefícios EspecíficosImpacto EconômicoPanorama do comércio exterior em 2025
Máquinas e equipamentosTarifa zero imediata para motores, geradores, equipamentos elétricosRedução de custos de modernização produtivaAumento de 10,4% em 2025
Automóveis e autopeçasAcesso a tecnologias europeias; redução tarifária progressivaIntegração a cadeias globais de valorUS$ 5,07 bilhões importados pelo Brasil
Produtos químicos e farmacêuticosInsumos químicos com tarifas reduzidas; harmonização regulatóriaIntegração a cadeias industriais; inovação tecnológica​2º principal indústria importada da UE
Calçados e artefatos de couroAmpliação de exportações; redução de barreirasAlta prevista de 3,2% nas exportações​US$ 358 milhões de importações

A desoneração de máquinas e equipamentos de alta precisão reduzirá custos de investimento em modernização, permitindo que as fábricas brasileiras abandonem o sucateamento e invistam em inovação. Especialistas projetam que cada R$ 1 bilhão exportado para a UE gera 21,8 mil empregos no Brasil.​

Setores com impacto negativo

Laticínios e bebidas: pressão competitiva imediata

O setor de laticínios brasileiro enfrentará competição intensa com queijos, leite em pó e ingredientes lácteos europeus, que chegarão com força às prateleiras nacionais. Analistas preveem aceleração na consolidação do mercado interno, com empresas ineficientes enfrentando dificuldades de sobrevivência.

Principais desafios competitivos:

ProdutoOrigem do ImpactoConsequência Esperada
Queijos e laticíniosImportações europeias com preços competitivosPressão sobre margens e preços; necessidade de reestruturação setorial
Vinhos e bebidas premiumAcesso facilitado a produtos europeus de alta qualidadeConcorrência com produtores nacionais; consolidação de mercado​
Bebidas finas e destiladosCachaça brasileira enfrenta cotas; bebidas europeias têm acesso ampliadoDesvantagem competitiva para destilados nacionais

Indústria de base: necessidade de adaptação estrutural

Embora a indústria brasileira tenha cronogramas generosos de adaptação, segmentos que operam com baixa produtividade e padrões tecnológicos defasados enfrentarão desafios significativos. A redução gradual de tarifas ocorrerá em prazos que variam de 4 a 15 anos, dependendo do setor, mas a pressão competitiva exigirá investimentos em modernização.​

Fatores de risco setorial:

  • Dependência de insumos importados: A redução de tarifas para produtos químicos e farmacêuticos europeus pode expor vulnerabilidades da indústria nacional de base química​
  • Gap tecnológico: setores que não aproveitarem o acesso a tecnologias europeias para modernização perderão competitividade​
  • Padrões regulatórios: A harmonização com normas europeias exigirá investimentos em certificação e conformidade, criando barreiras para empresas menores

Projeções econômicas e estratégicas

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) projeta crescimento de 0,46% no PIB brasileiro até 2040, equivalente a US$ 9,3 bilhões em riqueza adicional. A ApexBrasil estima aumento de US$ 7 bilhões nas exportações brasileiras e ampliação da diversificação da pauta exportadora.​

Principais vantagens estratégicas:

  • Reposicionamento produtivo: O Brasil combina escala agroindustrial, base industrial diversificada e mercado doméstico robusto, permitindo reposicionar cadeias produtivas como fornecedoras confiáveis para mercado de alta renda
  • Acesso a tecnologia: A cooperação científica e tecnológica com a UE permitirá à indústria brasileira integrar-se a cadeias globais de valor​
  • Segurança jurídica: O acordo estabelece regras modernas em propriedade intelectual, padrões sanitários e defesa comercial, criando ambiente de negócios mais previsível

A União Europeia já é o principal investidor produtivo no Brasil, com estoque de US$321,4 bilhões em 2023, liderado por França, Espanha, Países Baixos e Alemanha. A formalização do pacto consolida essa posição e deve atrair novos fluxos de capital produtivo.

O acordo Mercosul-UE representa uma oportunidade histórica de modernização estrutural da economia brasileira, com ganhos desproporcionais para o agronegócio e setores industriais de maior valor agregado. O sucesso da implementação dependerá da capacidade de aproveitar o acesso a tecnologias europeias e da agilidade em adaptar cadeias produtivas aos novos padrões competitivos, enquanto setores vulneráveis exigirão políticas de transição para mitigar impactos sociais e econômicos.


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