O comércio exterior brasileiro no primeiro semestre de 2026 encontra-se inserido em um contexto de profunda reorganização das cadeias de suprimentos globais. Tomando como recorte os quatro países que compõem o Grupo B da Copa do Mundo 2026, este relatório analisa as relações bilaterais do Brasil com nações que ocupam posições distintas e relevantes no tabuleiro geopolítico e macroeconômico atual: Canadá, Suíça, Qatar e Bósnia-Herzegovina.
Mais do que um elo esportivo, cada um desses mercados representa uma frente comercial específica: o Canadá como fornecedor mineral crítico para o agronegócio, a Suíça como hub de refino de ouro e de insumos farmacêuticos, o Qatar como potência energética em recomposição de saldo e a Bósnia-Herzegovina como mercado de fronteira em aproximação com a União Europeia.
A análise baseia-se nas informações oficiais das transações registradas no período acumulado de janeiro a maio de 2026 em contraposição ao igual período de 2025.
| País | Export. Br (2025) | Export. Br (2026) | Var. Expo (%) | Import. Br (2025) | Import. Br (2026) | Var. Impo (%) | Saldo Comercial (2026) |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Canadá | US$ 2,8 bi | US$ 3,0 bi | +6,73% | US$ 1,0 bi | US$ 1,3 bi | +28,62% | US$ +1,6 bi |
| Suíça | US$ 624,8 mi | US$ 1,2 bi | +97,20% | US$ 1,2 bi | US$ 1,3 bi | +9,17% | US$ -70,9 mi |
| Qatar | US$ 130,5 mi | US$ 149,4 mi | +14,50% | US$ 187 mi | US$ 85,6 mi | -54,23% | US$ +63,8 mi |
| Bósnia | US$ 954 mil | US$ 3,2 mi | +237,44% | US$ 4,4 mi | US$ 5,9 mi | +34,97% | US$ -2,7 mi |
O intercâmbio comercial entre Brasil e Canadá atingiu patamares históricos de complementaridade, sustentado por uma dependência estrutural do agronegócio brasileiro em relação aos insumos minerais daquele país.
O Canadá encerrou o ano de 2025 registrando um volume global de US$ 162 BI em minerais exportados, apresentando uma alta de 6% impulsionada por commodities como potássio, ouro, cobre e petróleo.
No fluxo direcionado ao mercado brasileiro, o potássio extraído das jazidas de Saskatchewan consolidou-se como o elemento vital para a manutenção das safras nacionais de grãos.
De acordo com a Logcomex.ai, de janeiro a maio de 2026, as importações brasileiras de Outros cloretos de potássio (NCM 3104.20.90) saltaram de US$ 447,9 MI em 2025 para US$ 733,9 MI em 2026, representando um incremento absoluto de US$ 286,0 MI.
Adicionalmente, a NCM 3104.20.10 (Cloreto de potássio com teor de K₂O inferior ou igual a 60%) registrou expansão de 287,7%, subindo de US$ 10,5 MI para US$ 40,8 MI.
Insight estratégico: O potássio atua como o principal catalisador de produtividade do solo brasileiro. Sem o fornecimento em larga escala do Canadá, a escala de exportação da soja e do milho do Brasil ficaria severamente comprometida, evidenciando uma vulnerabilidade tática que exige contratos de suprimento de longo prazo.
Por outro lado, o Brasil atua como um fornecedor de ativos de refino e alta liquidez para o Canadá. O principal produto exportado pelo Brasil para o mercado canadense no período foi a NCM 7108.12.10 (Bulhão dourado, bullion doré, em formas brutas para uso não monetário), registrando um crescimento de 54%, saindo de US$ 1,12 BI em 2025 para US$ 1,73 BI em 2026.
Esse movimento compensou a retração nas vendas de Alumina calcinada (NCM 2818.20.10), que recuou de US$ 742,4 MI para US$ 447,8 MI. O Café não torrado (NCM 0901.11.00) manteve a terceira posição, com US$ 106,4 MI em 2026 ante US$ 122,5 MI em 2025, leve recuo de 13%.
A Suíça estabeleceu um novo recorde histórico em 2025 ao exportar globalmente CHF 287 BI. Desse montante, 53% originaram-se diretamente de laboratórios farmacêuticos fornecedores de vacinas, soros e medicamentos de alta complexidade.
O país permanece refinando cerca de 70% do ouro negociado no planeta.
As exportações brasileiras para a Suíça apresentaram um crescimento de 97,20% no acumulado de janeiro a maio de 2026, atingindo US$ 1,23 BI.
Esse salto foi integralmente capitaneado pelo envio de Bulhão dourado (NCM 7108.12.10), que passou de US$ 474,2 MI em 2025 para US$ 995,6 MI em 2026, uma alta de US$521,4 MI que corrobora a posição da Suíça como o principal destino de ativos minerais metálicos de salvaguarda financeira do Brasil.
Já as importações brasileiras provenientes da Suíça totalizaram US$ 1,30 BI em 2026. O destaque absoluto concentrou-se na NCM 3002.15.90 (Outros produtos imunológicos apresentados em doses para venda a retalho), que registrou forte expansão, avançando de US$254,1 MI para US$ 394,6 MI.
Em contrapartida, as compras de medicamentos tradicionais (NCM 3004.90.69) recuaram ligeiramente de US$ 114,7 MI para US$ 99,6 MI, demonstrando uma clara transição do mercado nacional para biotecnologia e imunoterápicos de alto valor agregado.
Como o segundo maior exportador de gás natural liquefeito (GNL) do mundo, tendo comercializado 84,7 milhões de toneladas em 2025, o Qatar baseia sua economia na exportação de hidrocarbonetos e derivados químicos.
As informações da Logcomex.ai demonstram uma inversão favorável ao Brasil no balanço de pagamentos no início de 2026.
A balança comercial entre Brasil e Qatar reverteu um déficit de US$ 56,5 MI em 2025 para um superávit pró-Brasil de US$ 63,8 MI em 2026, motivado por uma contração de 54,23% nas importações brasileiras (que caíram para US$ 85,6 MI) e um avanço de 14,50% nas exportações (totalizando US$ 149,5 MI).
| Produto (NCM) | Valor FOB 2025 (US$) | Valor FOB 2026 (US$) |
|---|---|---|
| Carnes de galos/galinhas (0207.12.20) | 42,2 MI | 59,8 MI |
| Querosenes de aviação (2710.19.11) | 11,3 MI | 23,3 MI |
| Ureia (>45% N) (3102.10.10) | 110,4 MI | 40,4 MI |
| Outros querosenes (2710.19.19) | 15,6 MI | 25,6 MI |
Exportação Brasileira: As vendas de Carnes de galos/galinhas congeladas e inteiras (NCM 0207.12.20) cresceram de US$ 42,2 MI para US$ 59,8 MI, consolidando a posição do Brasil como parceiro estratégico para a segurança alimentar do Golfo Pérsico. O envio de Querosenes de aviação (NCM 2710.19.11) dobrou, passando de US$ 11,3 MI para US$ 23,3 MI.
Importação de insumos químicos: O recuo nas importações deveu-se à expressiva queda nas compras de Ureia com teor de nitrogênio superior a 45% (NCM 3102.10.10), insumo derivado do gás natural, que reduziu de US$ 110,4 MI em 2025 para US$ 40,4 MI em 2026. Contrabalançando essa queda, o Brasil aumentou as compras de Outros querosenes (NCM 2710.19.19) de US$ 15,6 MI para US$ 25,6 MI.
A Bósnia-Herzegovina, candidata oficial à adesão à União Europeia desde 2022 e com negociações formais abertas em 2024, registrou um crescimento global de 5,6% em suas exportações em 2025, sustentada pela metalurgia e pela madeira, que respondem por dois terços de suas exportações, além da energia elétrica.
De acordo com a Logcomex.ai, o Brasil iniciou um movimento tático de aproximação comercial com este mercado estratégico.
Embora os volumes nominais ainda sejam modestos em comparação com os players tradicionais, as exportações brasileiras para a Bósnia-Herzegovina apresentaram uma expansão de 237,44% nos primeiros cinco meses de 2026, atingindo US$ 3,2 MI.
Este crescimento decorre da abertura de mercado para proteínas e commodities agrícolas: o Brasil registrou US$ 1,64 MI em vendas de Carnes desossadas de bovino congeladas (NCM 0202.30.00) e US$ 480,7 mil em Café não torrado (NCM 0901.11.00), dois mercados que operavam com valor zero no mesmo período de 2025.
No segmento de importações, o Brasil adquiriu US$ 5,9 MI em produtos bósnios em 2026 (alta de 34,97%), concentrados em bens industriais de base como Outras partes de compressores de ar (NCM 8414.90.39), somando US$ 1,98 MI, e Partes de geradores de gás (NCM 8405.90.00), totalizando US$ 711,6 mil. A consolidação desse fluxo comercial posiciona o Brasil de forma vantajosa para quando a nação obtiver o acesso definitivo ao mercado comum europeu.
A análise das informações comerciais de 2026 evidencia que a inserção externa do Brasil se move por vetores de alta relevância estratégica. O avanço acelerado das importações de potássio canadense reflete a prioridade governamental e privada em assegurar a competitividade do agronegócio.
Simultaneamente, a escalada nas exportações de ouro para a Suíça e o Canadá atesta o papel do Brasil como provedor de liquidez mineral em um cenário internacional de alta volatilidade.
No âmbito de novos mercados e segurança energética e alimentar, a reversão do saldo comercial com o Qatar e a abertura expressiva de frentes de exportação de alimentos na Bósnia-Herzegovina apontam para caminhos eficientes de diversificação de parceiros comerciais, mitigando riscos de concentração de mercado.
O Canadá é o principal fornecedor de cloreto de potássio para o Brasil. Os dados de 2026 revelam que as importações brasileiras desse mineral superaram US$ 774,7 MI apenas de janeiro a maio (US$ 733,9 MI da NCM 3104.20.90 + US$ 40,8 MI da NCM 3104.20.10). Sem esse insumo essencial extraído de Saskatchewan, o agronegócio brasileiro não possui capacidade de manter a fertilidade do solo e a escala de produção necessária para suas exportações de soja.
O Brasil foca suas importações da Suíça em produtos de alta tecnologia biológica e farmacêutica. O principal destaque em 2026 são os produtos imunológicos apresentados em doses (NCM 3002.15.90), cujo valor de importação alcançou US$ 394,6 MI nos primeiros cinco meses do ano, seguido por medicamentos contendo compostos heterocíclicos (NCM 3004.90.69) com US$ 99,6 MI.
A balança se inverteu a favor do Brasil. O país aproveita a alta demanda e a infraestrutura logística do Golfo Pérsico para escoar carne de frango congelada, registrando vendas de US$ 59,8 MI para o mercado catariano de janeiro a maio de 2026 (NCM 0207.12.20). Combinada à queda de 54,23% nas importações brasileiras, essa dinâmica reverteu o saldo da balança comercial a favor dos exportadores brasileiros, gerando superávit de US$ 63,8 MI.
A Bósnia-Herzegovina é candidata à União Europeia. Em 2026, as exportações brasileiras para o país cresceram 237,44%, impulsionadas pelo início das vendas de carne bovina desossada congelada (NCM 0202.30.00), US$ 1,64 MI, e café em grão (NCM 0901.11.00), US$ 480,7 mil. Estabelecer canais comerciais ativos com a Bósnia garante ao Brasil um posicionamento pioneiro antes da entrada definitiva do país no mercado comum europeu.