Tarifa de 25% entrou em vigor em 22/07/2026. Segundo a Abiquim, efeito indireto sobre cadeias clientes pode superar US$1 bilhão. Para a indústria química, o efeito direto sobre os embarques taxados já é conhecido.
O ponto de atenção, segundo a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), está na reação em cadeia sobre os setores que compram insumos químicos para fabricar outros produtos exportados aos Estados Unidos.
Em 16 de julho, a Abiquim havia estimado um custo adicional de US$66 milhões ao setor até o fim do ano, segundo nota divulgada à imprensa e reproduzida pelo Portal de notícias UOL. Cinco dias depois, em entrevista ao Times Brasil (Licenciado Exclusivo CNBC), o presidente executivo da entidade, André Passos Cordeiro, elevou a projeção do impacto direto para cerca de US$100 milhões, referente a uma pauta exportadora química de US$600 milhões a US$700 milhões diretamente afetada pela tarifa.
Segundo Cordeiro, esse número direto não inclui um efeito bem maior: a queda nas exportações de outros setores que usam insumos químicos, como roupas, calçados, móveis, automóveis e autopeças. Somando esse efeito indireto, a Abiquim projeta um impacto superior a US$1 bilhão sobre a indústria química nacional.
Um levantamento da Abiquim, divulgado em 16 de julho e detalhado pelo Sinproquim, mostra que a tarifa não incide igualmente sobre toda a pauta química. Do universo de 1.177 códigos tarifários (SH6) do setor, 493 (42%) ficaram isentos e 684 (58%) permanecem sujeitos à sobretaxa de 25%.
Como as isenções recaem sobre produtos de maior volume exportado, como alumina calcinada, silício, hidróxido de alumínio e óxido de nióbio, entre 64% e 71% do valor total exportado ao mercado americano escapa da tarifa. Ainda assim, a maioria dos itens da pauta, em quantidade de produtos, segue tarifada.
Os segmentos mais expostos, segundo a associação, são:
● Tintas, vernizes e lacas
● Fibras têxteis sintéticas
● Sabões, detergentes e produtos de perfumaria
Químicos orgânicos, resinas e elastômeros também são afetados, mas em menor grau. Químicos inorgânicos e defensivos agrícolas tendem a sofrer menos, por terem maior participação na lista de isenções.
A Abiquim argumenta que a tarifa carece de justificativa comercial. Em 2025, os Estados Unidos exportaram cerca de US$11,5 bilhões em produtos químicos ao Brasil, enquanto o Brasil vendeu aproximadamente US$2,1 bilhões ao mercado americano.
Isso resulta em um superávit de US$9,4 bilhões a favor da indústria química dos EUA, conforme dados apresentados pela entidade em manifestação formal ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), em 13 de julho.
Parte dessa vantagem competitiva americana vem do custo da matéria-prima. Por exemplo, o gás de xisto usado pelos produtores dos EUA custa entre cinco e seis vezes menos que o gás natural disponível à indústria brasileira, o que dá aos fabricantes americanos mais margem para absorver oscilações de preço.
A indústria química fornece insumos essenciais a cadeias de transformação inteiras. Por isso, a Abiquim projeta que a retração nas exportações brasileiras de manufaturados (têxteis, calçados, móveis e veículos) reduza a demanda interna por borrachas sintéticas, colas, resinas e fibras, setores que dependem diretamente da produção química nacional.
| Setor cliente | Insumo químico afetado |
| Têxtil e vestuário | Fibras sintéticas |
| Calçados e artefatos | Sintéticos, adesivos e colas |
| Movelaria | Resinas e espumas |
| Automotivo e autopeças | Borrachas e polímeros |
O excesso de capacidade produtiva na China, provocado pela desaceleração do consumo interno chinês. Para escoar produção, fabricantes chineses têm direcionado mais volume à América Latina e à Europa, pressionando preços para baixo.
Ao mesmo tempo, a menor absorção da China reduziu as vendas americanas ao mercado asiático, deixando os EUA com estoques elevados e também mais agressivos em preço em mercados como o brasileiro.
Nesse cenário global mais apertado, medidas brasileiras de defesa comercial ajudaram a conter o avanço de importados no mercado interno: a participação de produtos químicos importados no consumo nacional, que havia chegado a 56%, recuou para cerca de 43%, segundo a Abiquim.
Antes de a tarifa entrar em vigor, a Abiquim já havia pedido formalmente ao USTR, em manifestação de 13 de julho, que o setor químico e petroquímico fosse excluído da lista, argumentando que a medida elevaria custos para a própria indústria americana, que usa insumos químicos brasileiros em embalagens, saúde, higiene, construção civil, agricultura e no setor automotivo. O pedido não foi atendido.
Diante do cenário confirmado, a Abiquim negocia com o governo federal um conjunto de medidas para preservar caixa e margem das empresas do setor:
● Reintegra: elevação da alíquota para devolver resíduos tributários acumulados na cadeia exportadora.
● Drawback: extensão dos prazos das modalidades Suspensão e Isenção, dando mais tempo às indústrias para importar insumos sem tributos antes de reexportar.
● Plano Brasil Soberano: mais recursos, juros menores e acesso simplificado ao crédito.
● ApexBrasil e BNDES: abertura de mercados para produtos químicos de origem renovável e estruturação de crédito de longo prazo para a cadeia petroquímica.
● Reforma do gás natural: medidas regulatórias em discussão com o Ministério de Minas e Energia, o MDIC e a Casa Civil para ampliar a concorrência e reduzir o custo do insumo.
A tarifa de 25% sobre produtos químicos representa, pelas contas mais recentes da Abiquim, um impacto direto de cerca de US$100 milhões, dez vezes menor que o efeito indireto projetado sobre a cadeia produtiva, que pode superar US$1 bilhão.
Para o setor, a resposta no curto prazo passa menos por substituir o mercado americano, o que exige tempo regulatório, e mais por capturar espaço no mercado interno e acionar os mecanismos fiscais já em negociação com o governo.
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Segundo a Abiquim, o impacto direto é estimado em cerca de US$100 milhões, referente a uma pauta exportadora química de US$600 milhões a US$700 milhões diretamente afetada pela tarifa.
É o efeito sobre a demanda por insumos químicos causado pela queda nas exportações de outros setores, como têxteis, calçados, móveis e automóveis. A Abiquim projeta esse impacto indireto acima de US$1 bilhão.
De 1.177 códigos SH6 do setor químico, 493 (42%) ficaram isentos, concentrados em produtos de maior volume como alumina calcinada e silício. Isso representa entre 64% e 71% do valor total exportado.
A Abiquim pede ampliação do Reintegra, extensão dos prazos do Drawback, mais recursos no Plano Brasil Soberano e reforma regulatória do mercado de gás natural.