O mercado brasileiro de combustíveis apresentou uma retração de 31,06% no valor FOB das importações de óleo diesel (NCM: 27101921) no primeiro trimestre de 2026 em comparação ao mesmo período de 2025, segundo o ComexStat.
Este declínio é reflexo de uma conjuntura de alta volatilidade internacional, exacerbada por tensões geopolíticas no Oriente Médio que impactaram diretamente os custos de desembarque (landed cost) e a previsibilidade do suprimento.
A dependência estrutural de importações, que oscila entre 25% e 30% do consumo nacional, de acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), colocou o abastecimento interno em situação de risco, demandando uma intervenção estatal sem precedentes em março de 2026.
O acordo firmado entre a União e pelo menos 22 estados brasileiros para subsidiar o diesel em R$1,20 por litro surge como a resolução necessária para mitigar o repasse de preços ao consumidor e garantir a continuidade das operações dos importadores privados.
Sendo assim, o cenário pode exigir uma revisão imediata das estratégias de sourcing e uma análise criteriosa da viabilidade de arbitragem sob o novo regime de subvenção.
A análise dos dados consolidados do Comex Stat revela uma contração significativa no valor FOB das aquisições externas de óleo diesel (NCM: 27101921), de janeiro a março de 2026 comparado com o mesmo período do ano passado:
FOB Jan a Março 2025: US$2.072.773.028
FOB Jan a Março 2026: US$1.428.936.289
Variação Nominal: – US$643.836.739 (- 31,06% em valor FOB).
Esta redução no Mercado Total Endereçável (TAM) de importação sugere não apenas uma queda na demanda, mas uma retração na oferta disponível ou uma incapacidade financeira de manter os fluxos comerciais frente aos preços internacionais elevados.
A análise do comportamento histórico (YoY) demonstra que o Brasil perdeu fôlego na sua capacidade de importação no início de 2026, o que justifica a urgência das medidas fiscais adotadas para estabilizar o mercado interno.
A instabilidade observada no Oriente Médio no primeiro trimestre de 2026 atuou como o principal catalisador para a desestabilização dos fluxos globais de destilados.
O aumento do risco geopolítico em zonas de estrangulamento (chokepoints) marítimos, como o Estreito de Ormuz, elevou substancialmente os prêmios de seguro de carga e as taxas de frete para rotas que conectam o Golfo Pérsico ao Atlântico Sul.
Este cenário gerou dois efeitos diretos observados nos dados de importação brasileira:
A volatilidade dos preços internacionais superou as margens de arbitragem dos importadores brasileiros, que reduziram as encomendas externas à espera de medidas de mitigação de risco (posteriormente atendidas pelo subsídio governamental).
O custo do diesel posto no porto (Landed Cost) sofreu pressão não apenas pela cotação do barril de petróleo, mas pelo aumento das despesas operacionais de transporte, tornando o produto importado menos competitivo frente ao preço praticado nas refinarias nacionais antes do ajuste de mercado.
A análise do “Top 5 Países Exportadores” no primeiro trimestre de 2026 (jan a mar) revela uma mudança estratégica na matriz de fornecimento brasileira, com a busca por diversificação e novos hubs logísticos para contornar as dificuldades de abastecimento.
No primeiro trimestre de 2026, a Rússia permaneceu como o principal fornecedor de diesel para o Brasil, no entanto, apresentou uma retração severa de 48,4%:
Apesar do diesel russo ser comercializado com descontos em relação ao índice Brent, as dificuldades logísticas e as barreiras de transações financeiras internacionais, somadas à instabilidade global, limitaram o volume transacionado no período.
Em contraste com os fornecedores tradicionais, observamos um crescimento robusto em novas origens:
Este movimento indica que o mercado brasileiro buscou mitigar riscos através de novos parceiros comerciais no Golfo, utilizando-se de infraestruturas que, apesar da proximidade com as tensões, demonstraram maior agilidade na exportação para o Hemisfério Sul.
Os Estados Unidos, tradicionalmente um parceiro de segurança energética para o Brasil, viram suas exportações de diesel para o país caírem de US$433 milhões para US$306 milhões (-29,3%).
Este recuo reflete a priorização do mercado interno americano e o redirecionamento de fluxos para a Europa, que também enfrenta escassez de oferta.
A análise territorial das importações de diesel no primeiro trimestre de 2026 revela uma redistribuição geográfica dos fluxos de entrada, com uma clara concentração no Sudeste em detrimento dos hubs tradicionais do Norte e Nordeste.
O estado de São Paulo consolidou-se como o principal polo importador, registrando um crescimento de 69% (passando de US$285 milhões para US$483 milhões).
Este movimento é corroborado pelo desempenho da URF São Sebastião, que saltou de US$74,5 milhões para US$285,9 milhões — um incremento extraordinário de 284%, segundo o ComexStat.
De acordo com a Logcomex, o Porto de São Sebastião posiciona-se como uma alternativa estratégica de alta eficiência para o abastecimento do maior mercado consumidor do país, possivelmente absorvendo volumes que anteriormente eram internalizados por outras vias mais onerosas ou congestionadas.
Em contraste, estados que tradicionalmente lideravam a importação de combustíveis apresentaram quedas acentuadas:
Maranhão: Queda de 30% no valor FOB, refletida diretamente na IRF São Luís, que permanece como a principal URF em volume absoluto, mas com uma contração de mais de US$180 milhões face a 2025.
Pernambuco: Registrou a queda mais severa entre os grandes players, com uma retração de 77% (de US$278 milhões para US$63,9 milhões).
Amazonas: Redução de 54%, sinalizando uma pressão logística adicional para o abastecimento da região Norte.
O Porto de Santos manteve uma operação estável (US$208 milhões em 2026 vs. US$212 milhões em 2025), demonstrando resiliência e a manutenção de contratos de longo prazo que garantem o fluxo regular independentemente das oscilações de mercado.
O cenário de 2026 exige uma postura proativa da liderança para aproveitar os mecanismos de suporte governamental. Abaixo, consolidamos algumas sugestões de recomendações:
A aprovação do subsídio de R$ 1,20 por litro (dividido entre União e Estados) altera fundamentalmente o cálculo de importação.
Por isso, recomenda-se que as áreas financeiras e de suprimentos recalculem o “Break-even” das operações.
O subsídio de caráter temporário (60 dias) cria uma janela de oportunidade para a reposição de estoques a custos competitivos, mitigando a exposição à alta do petróleo internacional.
A dependência excessiva de fontes sob pressão regional no Oriente Médio ou de origens com barreiras logísticas (Rússia) deve ter sua mitigação avaliada.
Sendo assim, é importante buscar e fortalecer parcerias com os novos hubs em crescimento (Emirados Árabes e Omã) e monitorar a capacidade de refino disponível no Golfo Americano, visando garantir a continuidade operacional em caso de novos picos de instabilidade.
O deslocamento do volume para São Sebastião indica que a eficiência portuária e a proximidade com a malha dutoviária são diferenciais competitivos críticos.
É recomendado avaliar a viabilidade de redirecionar fluxos de importação para portos com menor tempo de espera e maior integração logística, visando reduzir os custos de estadia (Demurrage) em períodos de incerteza.
Uma possível redução da dependência externa sugere uma mudança estrutural no mercado nos próximos anos.
Por isso, sugere-se o monitoramento dos planos de expansão do refino nacional para alinhar a estratégia de importação privada com a oferta doméstica crescente a longo prazo.
A volatilidade do preço do barril de petróleo Brent no primeiro trimestre de 2026 foi o fator determinante para a compressão das margens no comércio exterior e para o encarecimento da logística global.
A elevação dos preços internacionais foi impulsionada pela redução da oferta global e pela inserção de prêmios de risco nos contratos futuros, decorrentes da instabilidade no Oriente Médio.
O estreitamento da capacidade de refino em polos estratégicos e a incerteza sobre a segurança das rotas de escoamento mantiveram o barril em patamares elevados, impactando diretamente o custo de aquisição do diesel importado pelo Brasil.
A oscilação do petróleo gera um efeito cascata em todos os modais de transporte, elevando o custo final das mercadorias (landed cost):
O aumento do petróleo eleva o custo do Bunker Fuel (combustível marítimo). Somado aos prêmios de seguro de guerra (War Risk Surcharges) para embarcações que transitam próximas a zonas de conflito, o frete marítimo de longo curso sofreu reajustes significativos.
A necessidade de rotas alternativas para evitar pontos de estrangulamento também aumenta o tempo de navegação e o consumo de combustível por viagem.
Leia também: Indústrias redesenham rotas marítimas para contornar Estreito de Ormuz
No Brasil, o diesel representa cerca de 35% a 50% dos custos operacionais do transporte de carga.
A alta internacional, quando repassada ao mercado interno, eleva imediatamente as tabelas de frete rodoviário, gerando pressão inflacionária em toda a cadeia de suprimentos, desde o escoamento de safras até a distribuição urbana.
O QAV (Querosene de Aviação) acompanha estritamente a paridade internacional.
O aumento deste insumo eleva o Fuel Surcharge nas faturas de transporte aéreo, impactando a viabilidade de importações e exportações de produtos de alto valor agregado ou perecíveis que dependem da agilidade deste modal.
A tendência para os próximos meses aponta para a manutenção de patamares elevados de preços, com baixa probabilidade de deflação estrutural no curto prazo. O mercado deve operar sob forte dependência da estabilização regional.
Estrategicamente, espera-se que o setor logístico intensifique a aplicação de cláusulas de gatilho de combustível nos contratos de transporte para proteger as margens operacionais contra as oscilações diárias da cotação do barril.
O primeiro trimestre de 2026 encerrou com uma retração de 31,06% em valor FOB das importações de diesel, resultado direto da instabilidade no Oriente Médio e da compressão das margens de arbitragem.
A mudança no perfil das origens, com o fortalecimento de parceiros como Emirados Árabes e Omã, evidencia a reconfiguração das cadeias de suprimento para mitigar riscos de interrupção no fornecimento.
A subvenção de R$1,20 por litro atua como mecanismo central para a estabilização do mercado e a viabilização de novas operações e a tendência para o próximo trimestre é de recuperação volumétrica.
A liderança estratégica deve priorizar a eficiência logística em hubs de alto desempenho, como São Sebastião, e a utilização ágil dos incentivos fiscais para assegurar a competitividade e a segurança energética nacional perante a volatilidade global.