Em 1º de maio de 2026, o acordo Mercosul-União Europeia finalmente começou a valer. Era a janela que o agro brasileiro esperava há anos. Trinta dias depois, ela já estava fechada para exportação de arroz e ovos, e sem o Brasil dentro. A Cota Mercosul-UE de arroz foi inteiramente capturada por Uruguai e Argentina. A de ovos ficou 100% nas mãos dos exportadores argentinos.
O país que mais produz arroz e mais produz ovos no bloco ficou olhando o acordo entrar em vigor sem conseguir registrar uma única exportação preferencial. E a explicação não passa por competitividade do produto.
A diferença foi puramente operacional. Quem tinha sistema digital de certificado de origem rodando no dia 1 conseguiu registrar embarques nas primeiras horas. Quem ainda estava ajustando a documentação ficou para trás.
O acordo reservou apenas 6.667 toneladas de arroz para todo o Mercosul em 2026.
A divisão interna dessa cota entre os países do bloco era a primeira tarefa a resolver, mas nenhum critério tinha sido fechado até a entrada em vigor.
Na falta de regra, prevaleceu o sistema transitório First-In, First-Out (FIFO), no qual leva a cota quem registra a exportação primeiro.
O Uruguai ficou com 63% do arroz. A Argentina fechou os 37% restantes. Nos ovos, os argentinos foram ainda mais rápidos e capturaram 100% da cota com preferência tarifária.
O próprio governo argentino explicou o porquê. O país tinha montado um sistema digital de emissão de certificados de origem antes mesmo do acordo entrar em vigor, e por isso seus exportadores conseguiram registrar embarques já nas primeiras horas do dia 1. Enquanto isso, brasileiros, uruguaios e paraguaios ainda tentavam regularizar a documentação.
Os dados de exportação entre janeiro e abril de 2026 mostram um cenário bem diferente do que o noticiário sobre as cotas pode sugerir. A União Europeia não é, nem de longe, o pilar do escoamento desses dois produtos.
Só no primeiro quadrimestre de 2026, o arroz brasileiro já gerou US$180,1 milhões em exportações. Para dar dimensão, esse número sozinho já supera o ano inteiro de 2025 (US$ 127,7 milhões) e também o de 2024 (US$ 147,6 milhões). O setor está vivendo um ciclo claro de aceleração. Os destinos que sustentam esse desempenho:
| Destino | Valor 2026 (jan-abr) | Participação |
|---|---|---|
| Venezuela | US$ 56,1 mi | 31,1% |
| Senegal | US$ 31,3 mi | 17,4% |
| México | US$ 18,8 mi | 10,5% |
| Cuba | US$ 13,7 mi | 7,6% |
| Gâmbia | US$ 8,6 mi | 4,8% |
| Peru | US$ 8,2 mi | 4,6% |
| Costa Rica | US$ 7,9 mi | 4,4% |
| Estados Unidos | US$ 7,3 mi | 4,1% |
Toda a União Europeia, somada, responde por US$11,9 milhões no período, ou 6,6% do total. Quase tudo se concentra em Holanda (US$ 6,4 mi) e Portugal (US$ 4,4 mi), com a Espanha aparecendo em terceiro lugar bem distante, com US$ 805 mil. Os outros 24 países do bloco juntos não chegam a US$ 300 mil.
Na prática, o arroz brasileiro é um negócio da África Ocidental, Caribe e América Latina. A Europa segue sendo destino premium para variedades específicas, mas não é a rota onde está o volume.
A pauta de ovos é ainda mais concentrada. Foram US$ 10,4 milhões exportados no primeiro quadrimestre, e três destinos sozinhos respondem por 86% desse volume:
| Destino | Valor 2026 (jan-abr) | Participação |
|---|---|---|
| Chile | US$ 4,7 mi | 44,6% |
| Emirados Árabes Unidos | US$ 2,3 mi | 21,7% |
| Japão | US$ 2,0 mi | 18,9% |
A União Europeia inteira responde por apenas US$ 120 mil no período. Isso é 1,1% das exportações brasileiras de ovos. Polônia, Itália, Malta e Portugal aparecem na lista, mas com volumes individuais que ficam abaixo de US$ 32 mil cada um.
Na prática, a cota perdida não vai comprimir margem em contratos em andamento, porque praticamente não existiam contratos em andamento sob a nova preferência. O acordo tinha menos de 30 dias de vigência quando as cotas se esgotaram. O que se perdeu, na verdade, foi a opção de usar essa preferência tarifária ao longo de 2026.
Para o arroz, isso significa duas coisas ao mesmo tempo.
A primeira é que, no agregado, o impacto setorial é limitado. Como a União Europeia responde por menos de 7% das exportações brasileiras de arroz, o ano de 2026 continua sendo recorde mesmo sem a cota.
A segunda é que o impacto se concentra exatamente nos exportadores que vinham se posicionando para Holanda, Portugal e Espanha. Se essa é a sua operação, vale recalcular o custo no destino agora sem o benefício tarifário, revisar a estrutura contratual dos embarques previstos e avaliar se o negócio ainda fecha em margem positiva.
Em relação aos ovos, o caso é praticamente simbólico no curto prazo, porque a União Europeia não é um mercado relevante para o setor. A Argentina garantiu posicionamento de fornecedor preferencial em uma janela que se renova todo ano, e reverter esse cenário em 2027 vai exigir capacidade operacional brasileira que ainda não está montada.
O episódio da Cota Mercosul-UE deixa três lições que precisam entrar na pauta:
Quem trata cota como variável estratégica reduz risco, captura janela e toma decisão comercial com mais qualidade. Quem trata como detalhe administrativo descobre pelo noticiário que o concorrente sul-americano já fechou o ano.
Significa que o volume com preferência tarifária disponível para 2026 foi totalmente registrado por outros países do Mercosul antes que os exportadores brasileiros conseguissem entrar na janela.
Não. O arroz brasileiro tem US$ 11,9 milhões em destinos UE no primeiro quadrimestre de 2026 que ficam fora da preferência tarifária. Já os ovos somam apenas US$ 120 mil em destinos UE no mesmo período, então o impacto direto é quase nulo.
Não. O acesso comercial continua aberto, só que com tarifa cheia. O que se perdeu foi o benefício tarifário no volume da cota anual, mas a porta para a Europa segue lá.
Porque a regra adotada nesse primeiro ciclo foi First-In, First-Out, ou seja, a cota foi para quem registrou primeiro, e não para quem produz mais. A Argentina já tinha sistema digital de certificado de origem pronto, enquanto Brasil, Uruguai e Paraguai ainda estavam regularizando documentação quando o acordo começou.
As operações em CIF e DDP com destino a Holanda, Portugal e Espanha, que juntas somam 91% das exportações brasileiras de arroz para a UE. Antes de fechar novos embarques nos próximos meses, vale rodar de novo o cálculo de custo no destino agora sem a preferência tarifária.
No nível da empresa com operações abertas para a UE, precificar novamente e revisar Incoterms com o apoio da tecnologia.
Em acordos comerciais modernos baseados em FIFO, velocidade regulatória vale tanto quanto preço e logística. Quem opera com sistemas digitais maduros captura a janela. Quem ainda depende de fluxos manuais perde a corrida nos primeiros dias.