Acordo Mercosul-União Europeia: Impactos na indústria química

A aprovação definitiva do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, consolidada em janeiro de 2026, encerra um […]

A aprovação definitiva do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, consolidada em janeiro de 2026, encerra um ciclo de 26 anos de negociações e inaugura uma das maiores áreas de livre comércio do globo.

Com um mercado de 720 milhões de pessoas e um PIB combinado superior a US$22 trilhões, o pacto redefine as diretrizes do comércio exterior brasileiro para a próxima década.

Embora o acordo tenha entrado em sua fase de internalização e implementação técnica, os seus efeitos já são determinantes para o planejamento estratégico e a reconfiguração das Cadeias Globais de Valor (GVCs).

O impacto é estratégico: ganhos imediatos de escala para o agronegócio e uma janela crítica de modernização para a indústria nacional, com destaque para o setor químico-farmacêutico.

Sobre o acordo

Em 17 de janeiro de 2026, a União Europeia e o Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) assinaram formalmente um acordo de livre comércio histórico—o mais significativo na história da UE e produto de mais de 25 anos de negociações. 

O acordo elimina tarifas sobre 91% das exportações Mercosul para a UE em 12 anos e 95% das exportações UE para Mercosul em até 15 anos. Tarifas zero passam a ser aplicadas de forma prioritária e, em alguns casos, imediatas a químicos, farmacêuticos, máquinas e outros produtos industriais.

O Acordo MERCOSUL-União Europeia em Janeiro de 2026: Status, impasses e perspectivas

O acordo foi assinado em Assunção após quase três décadas de diálogo. 

Contudo, a aprovação do Conselho Europeu em 9 de janeiro não encerrou a controvérsia: em 21 de janeiro, o Parlamento Europeu votou por uma margem mínima (334-324) para encaminhar o acordo ao Tribunal de Justiça da UE para revisão jurídica, o que pode gerar um hiato de até 2 anos na ratificação plena.

Apesar desse impasse, há uma expectativa realista de aplicação provisória da parte comercial em março de 2026, condicionada à ratificação inicial de um país do MERCOSUL (com o Paraguai liderando o processo).

Estrutura jurídica e termos negociados

O acordo utiliza um desenho bifurcado para acelerar a vigência:

  1. Acordo Comercial Interino (iTA): Focado na liberalização comercial (competência exclusiva da UE), permitindo entrada em vigor célere.
  2. Acordo de Parceria MERCOSUL-UE (EMPA): Integra os pilares político e de cooperação, exigindo ratificação individual de todos os 27 Estados-membros.

Os termos refletem uma assimetria favorável ao MERCOSUL: a UE eliminará tarifas sobre 93% de sua pauta em até 10 anos, enquanto o MERCOSUL o fará para 91% em até 15 anos. 

No primeiro ano, 39% dos produtos agrícolas do MERCOSUL exportados à UE já contarão com tarifa zero.

Resistência política e Judicialização

O Conselho Europeu aprovou o acordo com 21 votos favoráveis. A oposição (França, Polônia, Áustria, Hungria e Irlanda) baseia-se na proteção do setor agrícola. 

Protestos massivos em capitais como Paris e Varsóvia em janeiro de 2026 sublinharam a sensibilidade do tema.

A judicialização no Parlamento Europeu questiona a classificação do acordo (se deve ser “misto”) e o mecanismo de reequilíbrio regulatório ambiental.

Cenários de implementação

  • Cenário 1: Aplicação Provisória (Março 2026): Alta probabilidade de início da desoneração comercial via iTA, facilitando o fluxo para exportadores brasileiros.
  • Cenário 2: Paralisação Jurídica (2027-2028): Caso o Tribunal de Justiça da UE demande o prazo padrão de 18-24 meses para o parecer.
  • Cenário 3: Ratificação Plena (2027+): Processo lento de aprovação em todos os parlamentos nacionais. No Brasil, o Congresso busca aprovação ainda no primeiro semestre de 2026.

Contexto macroeconômico e balança comercial (base 2025)

Os dados consolidados de 2025 demonstram que o Brasil encerrou o ano com um recorde histórico na sua corrente de comércio, atingindo US$629,1 bilhões

No entanto, a relação com o bloco europeu apresenta um cenário de leve déficit comercial que reforça a urgência de ganhos de eficiência tarifária:

  • Exportações para a UE (FOB): US$49,8 bilhões (+3,1% vs 2024).

Importações para a UE (FOB): US$50,2 bilhões (+6,0% vs 2024).

  • Corrente de comércio: US$100,1 bi (15,9% do total)

A indústria da transformação atua como catalisadora da inovação: a importação de máquinas e equipamentos apresentou alta de 10,4% em 2025, sinalizando um movimento de renovação tecnológica antes mesmo da plena vigência das alíquotas reduzidas.

Em 2024, de acordo com a SECEX, as exportações da União Europeia para o mundo somaram US$2,73 tri, enquanto as importações do mundo registraram US$2,91 tri.

Análise vertical das importações: O setor químico

A indústria química brasileira é o “core” da balança comercial com a Europa. Em 2025, a Alemanha consolidou-se como o principal hub de tecnologia e insumos básicos para o mercado brasileiro, sustentada por um ecossistema de mais de 700 empresas apenas do setor químico, de acordo com a Logcomex. Em relação às empresas que compraram da Alemanha em 2025, foram mais de 7 mil.

A análise do segundo semestre do ano passado revela uma migração estratégica e flutuações críticas em NCMs de alta complexidade, fundamentais para o planejamento de market share de fornecedores globais.

Segundo dados da Abiquim/MDIC, o déficit com a UE terminou 2025 em US$13,5 bilhões, evidenciando a dependência de insumos de alta tecnologia europeus.

Diagnóstico de importações por NCM (Comparativo Jul-Dez 2024 vs. 2025)

NCMDescrição ResumidaPaís (2025)FOB 2025 (Jul-Dez)FOB 2024 (Jul-Dez)Variação (%)
3004.90.59Outros medicamentos (Pos. 2930 a 2932)AlemanhaUS$ 25,3 miUS$ 18,3 mi+38,01%
3004.90.39Medicamentos (Função Amina)Espanha*US$ 12,6 miUS$ 14,6 mi-13,66%
3004.90.68Ciclosporina A, Fluspirileno, etc.AlemanhaUS$ 1,4 miUS$ 8 mi-81,94%
3002.12.29Outras frações do sangueDinamarcaUS$ 343 milUS$ 2,2 mi-84,67%
3002.49.99Vacinas, toxinas e microrganismosFrançaUS$ 1,2 miUS$ 2,2 mi-46,01%
3002.15.20Anticorpos MonoclonaisÁustriaUS$ 2,1 miUS$ 26,5 mi-92,05%
Nota: Na NCM 3004.90.39, a Espanha assumiu a liderança de fornecimento que, em 2024, pertencia à Alemanha, indicando uma redistribuição de market share dentro do próprio bloco europeu.

Cenário mercadológico principais NCMs importadas

NCM30049099
DescriçãoOutros medicamentos contendo produtos para fins terapêuticos, etc, doses
FOB 2025US$ 11,87 MI
FOB 2024US$ 11,80 MI
Nº empresas importadoras63
Nº fornecedores71
Qtde operações anual (2025)4.990
Fonte: Logcomex
NCM30021590
DescriçãoOutros produtos imunológicos, apresentados em doses ou acondicionados para venda a retalho
FOB 2025 (Jul a Dez)US$ 342,5 mi
FOB 2024 (Jul a Dez)US$ 318,5 mi
Nº empresas importadoras47
Nº fornecedores66
Qtde operações anuais (2025)6.370
Fonte: Logcomex
NCM30049079
DescriçãoOutros medicamentos com compostos heterocíclicos, etc, em doses
FOB 2025 (Jul a Dez)US$ 53,4 mi
FOB 2024 (Jul a Dez)US$ 71 mi
Nº empresas importadoras43
Nº fornecedores49
Qtde operações anual (2025)2.860
Fonte: Logcomex
NCM30049069
DescriçãoOutros medicamentos contendo compostos heterocíclicos heteroátomos nitrogenados, em doses
FOB 2025 (Jul a Dez)US$ 75 mi
FOB 2024 (Jul a Dez)US$ 56,5 mi
Nº empresas importadoras42
Nº fornecedores59
Qtde operações anual (2025)3.820
Fonte: Logcomex

Outras NCMs

NCM30049059
DescriçãoOutros medicamentos contendo produtos das posições 2930 a 2932, etc, em doses
FOB 2025 (Jul a Dez)US$ 25,3 mi
FOB 2024 (Jul a Dez)US$ 18,3 mi
Fonte: Logcomex
NCM30049039
DescriçãoOutros medicam.c/compostos de função amina, etc, em doses
FOB 2025 (Jul a Dez)US$ 12,6 mi
FOB 2024 (Jul a Dez)US$ 14,6 mi
Fonte: Logcomex
NCM30049068
DescriçãoMedicamento contendo ciclosporina a, fluspirileno, etc, em doses
FOB 2025 (Jul a Dez)US$ 1,4 mi
FOB 2024 (Jul a Dez)US$ 8 mi
Fonte: Logcomex
NCM30021229
DescriçãoOutras frações do sangue, exceto as preparadas como medicamentos
FOB 2025 (Jul a Dez)US$ 343 mil
FOB 2024 (Jul a Dez)US$ 2,2 mi
Fonte: Logcomex
NCM30024999
DescriçãoOutras vacinas, toxinas, culturas de microrganismos (exceto leveduras) e produtos semelhantes, não classificados em códigos anteriores
FOB 2025 (Jul a Dez)US$ 1,2 mi
FOB 2024 (Jul a Dez)US$ 2,2 mi
Fonte: Logcomex
NCM30021520
DescriçãoBasiliximab (DCI); bevacizumab (DCI); daclizumab (DCI); etanercept (DCI); gemtuzumab ozogamicin (DCI); oprelvekin (DCI); rituximab (DCI); trastuzumab (DCI)
FOB 2025 (Jul a Dez)US$ 2,1 mi
FOB 2024 (Jul a Dez)US$ 26,5 mi
Fonte: Logcomex

A reconfiguração global: Oportunidades e mitigação de riscos para o setor de produtos químicos orgânicos

O ano de 2025 foi marcado pela exploração e crescimento de novos centros de fornecimento, visando custos e segurança de cadeia:

  • China: FOB 2025 de US$ 5,7 bi (+15% vs 2024).
  • Índia: FOB 2025 de US$2 bi (+16% vs 2024).
  • EUA: FOB 2025 de US$1,8 bi (-2% vs 2024).
  • Alemanha: FOB 2025 de US$1,21 bi (-6% vs 2024).

Esta tendência demonstra que empresas brasileiras estão aproveitando oportunidades em novos centros produtores, mitigando a dependência de fontes tradicionais, traduzidos na retração dos valores importados dos EUA e Alemanha.

Inteligência de Sourcing 

Com as incertezas da assinatura do acordo Mercosul – UE e nas relações entre EUA e a própria União Europeia, a descoberta de novas rotas tornou-se imperativa. 

Em cenários de instabilidade no Atlântico Norte, a rota tradicional UE-Brasil pode ser comprometida, tornando o fornecimento via Índia e China (eixos em expansão) uma salvaguarda logística essencial.

 O “Dual Sourcing” deixa de ser opcional para se tornar o padrão de resiliência.

Salvaguardas bilaterais e ESG

Em dezembro de 2025, a UE implementou regulamentos de salvaguarda para equilibrar a liberalização:

  • Suspensão temporária de preferências: Para produtos sensíveis (carnes) caso causem “lesão grave”.
  • Mecanismo de reequilíbrio: Exigência de conformidade com legislações ambientais e sociais europeias.
  • ESG como passaporte: A harmonização com padrões europeus (como a EMA) é requisito para acesso a crédito verde e manutenção de mercado.

Insights estratégicos

  1. Hegemonia Alemã: A Alemanha reforça seu papel como fonte de sourcing essencial no setor químico, com crescimento expressivo (38%) da NCM 3004.90.59. A queda em itens como Ciclosporina sugere reacomodação de inventário ou mudança de planta produtiva industrial.

  2. Eficiência de custo (Landed Cost): A volatilidade em NCMs de alto valor agregado, como a 3002.15.20 (Áustria), abre uma janela de oportunidade para que fornecedores europeus revisitem suas estratégias de expansão no Brasil, utilizando a futura desoneração tarifária como alavanca comercial.

Para a indústria química global, o acordo do Mercosul com a UE representa um realinhamento estrutural com implicações profundas para acesso a mercados, dinâmica competitiva, resiliência de cadeias de suprimentos e equilíbrio geopolítico na produção química.

Com o momento atual de instabilidade geopolítica, o mapeamento dos diferentes cenários nas relações comerciais entre países e empresas é vital para a resiliência da cadeia produtiva química nacional. 

Até a presente data, o Brasil é extremamente dependente de insumos externos. O aparecimento de novos fornecedores nos mercados do sudeste asiático descortina-se como oportunidade de variação da cadeia de suprimentos, insumo para melhores negociações por preço e salvaguarda em momentos de incerteza.

Fluxo de Exportações: Brasil para a União Europeia

A exportação brasileira também projeta um salto de competitividade. Atualmente, 73% das vendas para o bloco concentram-se em cinco destinos: Países Baixos (US$11,7 bi), Espanha (US$8,8 bi), Alemanha (US$6,5 bi), Itália (US$5,3 bi) e Bélgica (US$4 bi).

Principais produtos e impactos do Acordo

  • Óleos Brutos de Petróleo: (US$9,8 bi em 2025). Tarifas UE: 0%. Previsão: Manutenção da competitividade com facilitação aduaneira.

  • Café Não Torrado: (US$7,1 bi em 2025). Tarifas UE: média 4,2%. Previsão: Eliminação imediata na maioria das categorias.

  • Farelos de Soja: (US$4 bi em 2025). Tarifas UE: média 1,6%. Previsão: Eliminação gradual e imediata conforme o subproduto.

  • Indústria de Transformação (Manufaturados): Itens como óleos essenciais (US$263 mi) e alumínio (US$244 mi) terão suas tarifas (que chegam a 17%) eliminadas gradualmente, permitindo maior penetração em mercados maduros.

  • Álcoois, fenóis, fenóis-álcoois, e seus derivados halogenados, sulfonados, nitrados ou nitrosados:  Valor exportado para a UE (2025): US$ 218,2 mi. Tarifas UE ao Brasil: Média: 5,7% (mín: 0% – máx: 27,5%). 

Previsão Acordo Mercosul-UE: Eliminação gradual de tarifas para a maioria dos produtos; eliminação imediata de tarifas para parte dos produtos; cotas tarifárias para parte dos produtos.

Principais estados brasileiros exportadores para a UE

Os estados que lideram o fornecimento para a UE em volume absoluto são:

  1. Rio de Janeiro (US$ 9,9 mi)
  2. São Paulo (US$ 8,6 mi)
  3. Minas Gerais (US$ 7,5 mi)
  4. Pará (US$ 4 mi)
  5. Mato Grosso (US$ 3 mi)

Contudo, em termos de dependência estratégica (participação da UE no total exportado pelo estado), o bloco é vital para:

Sergipe: 51,8%

Amapá: 36,9%

Paraíba: 30,8%

Rio Grande do Norte: 22,3%

Amazonas: 21,3%

Implementação gradual do Acordo com a UE

O cronograma de desgravação seguirá prazos faseados (em alguns casos, até 10 ou 15 anos). Mapear quais NCMs do seu portfólio possuem desoneração acelerada é vital para o fluxo de caixa.

Além disso, é importante realizar o mapeamento de quais NCMs com as desonerações podem tornar-se mais atraentes, seja por começar a ter valores mais competitivos no mercado e devem começar a ser importadas, seja para mudança e desenvolvimento de novos fornecedores europeus.

De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, os cronogramas já detalham essas janelas de oportunidade.

Conclusão

O acordo Mercosul-União Europeia não deve ser lido apenas como uma redução de alíquotas, mas como um catalisador de transformação estrutural. 

Os dados de 2025 já sinalizam que a integração operacional precede a burocrática: a análise profunda  do eixo tecnológico alemão no setor químico e a consolidação de hubs de exportação no Brasil exigem planejamento estratégico.

 Para empresas que buscam liderança, a estratégia deve basear-se em três pilares:

  1. Arbitragem tarifária e recálculo de Landed Cost

A desgravação gradual exige uma revisão profunda do planejamento tributário. É imperativo mapear o pipeline de importação de bens de capital e insumos químicos para alinhar janelas de investimento (CAPEX) aos marcos de redução tarifária, otimizando o fluxo de caixa de longo prazo.

  1. Resiliência e Dual Sourcing

A facilitação comercial com a Europa oferece uma oportunidade crítica para reduzir a exposição à volatilidade logística asiática. 

Reavaliar o sourcing de NCMs complexas (como as de função amina e anticorpos monoclonais) a partir de fornecedores europeus pode elevar a qualidade técnica e a segurança jurídica da cadeia de suprimentos.

3. ESG como passaporte de mercado

O acordo eleva o patamar de exigência regulatória. A conformidade com os padrões de sustentabilidade e segurança química da UE deixará de ser um diferencial para tornar-se um requisito de acesso.

Empresas que anteciparem a harmonização de seus processos com as diretrizes europeias garantirão não apenas mercado, mas acesso prioritário a linhas de crédito verde e financiamentos internacionais.

Em suma, o sucesso neste novo mapa da competitividade não será determinado por quem paga menos imposto, mas por quem demonstra maior agilidade em reconfigurar suas cadeias globais e modernizar sua base tecnológica frente aos novos padrões globais de eficiência.




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