Vidros: Desempenho no Comércio global em 2025

O período de janeiro a setembro de 2025 consolidou uma reconfiguração forçada da cadeia de suprimentos do setor de fabricação […]

O período de janeiro a setembro de 2025 consolidou uma reconfiguração forçada da cadeia de suprimentos do setor de fabricação de vidros.

O segmento operou sob forte pressão regulatória na importação (tarifas de 25%), o que alterou drasticamente a competitividade do vidro plano básico, enquanto o consumo de manufaturados de vidro (garrafas e utilidades) explodiu. 

Na exportação, o Brasil reafirmou sua vocação como hub industrial automotivo regional, mas a dependência crítica da Argentina (38% do volume) acendeu o alerta de risco de concentração de carteira.

Hipóteses de mercado

A seguir, entenda o comportamento dos fluxos comerciais, as causas macroeconômicas e regulatórias que ditaram o desempenho dos principais produtos importados e exportados (Top 5 NCMs).

Importação: A substituição do básico pelo acabado

O volume importado totalizou US$619,5 milhões (+4%) – de janeiro a setembro de 2025 – segundo dados da Logcomex. A análise detalhada das 5 principais linhas tarifárias revelou uma mudança estrutural no perfil de compra:

NCM 7005.29.00 – Vidro Flotado/Float: Queda de 50% (US$16,3 mi).

A queda não refletiu necessariamente retração de demanda na construção civil, mas sim a eficácia da barreira tarifária (TEC elevada para 25% pela GECEX) somada ao início de investigações antidumping contra novas origens. O mercado interno foi compelido a consumir o produto nacional.

NCM 7010.90.90 – Garrafas e Frascos: Crescimento de 22% (US$87 mi).

A indústria de bebidas enfrentou um gap de capacidade produtiva local ou preços domésticos elevados, recorrendo massivamente à importação para suprir o envase.

NCM 7013.49.00 – Utilidades Domésticas- Crescimento de 23% (US$73,2 mi).

O varejo recompôs estoques apostando em itens de mesa posta importados, sugerindo que o consumidor final absorveu produtos de maior valor agregado, majoritariamente da China.

NCM 7009.10.00 -Espelhos Retrovisores: Crescimento de 31% (US$63,6 mi).

O aquecimento do mercado de reposição automotiva (aftermarket) impulsionou a demanda por peças prontas, superando a capacidade ou competitividade da manufatura local de autopeças.

NCM 7019.90.00 -Fibras de Vidro/Outras:  Crescimento de 13% (US$37 mi)

Demanda industrial resiliente para reforços estruturais, indicando atividade contínua em setores industriais não ligados à construção civil básica.

A China manteve-se hegemônica (47% de share), provando que, mesmo com fretes e tarifas, sua competitividade em produtos manufaturados (garrafas e utilidades) permaneceu inabalada.

Análise das exportações de vidro em 2025

De acordo com a Logcomex, As exportações somaram US$201,2 milhões (+20%) de janeiro a setembro de 2025,, com forte tração em produtos de maior complexidade técnica:

NCM 7019.12.90 – Mechas de Vidro/Rovings: Alta de 21% (US$26,7 mi)

O Brasil posicionou-se como fornecedor chave de insumos para compósitos industriais globais, com alta aceitação externa.

NCM 7009.10.00 – Espelhos Retrovisores: Alta de 14% (US$25,8 mi).
NCM 7007.21.00 – Vidros Laminados Automotivos:: Alta de 21% (US$ 24 mi).

Estes dois itens confirmaram a integração das linhas de montagem do Mercosul. O crescimento ocorreu em paralelo à recuperação da produção de veículos na Argentina e México.

NCM 7010.90.90 -Garrafas e Frascos: Alta de 8% (US$ 19,5 mi).

Complementariedade regional. O mesmo item que o Brasil importou em massa, também exportou, sugerindo trocas intra-companhia ou especialização em tipos específicos de garrafas (ex: premium vs. standard).

NCM 7007.11.00 – Vidros Temperados: Queda de 7% (US$ 15,5 mi)

Perda de competitividade pontual. O vidro temperado, de menor valor agregado que o laminado, sofreu maior pressão da concorrência chinesa nos mercados de destino.

Insights estratégicos

Baseado na análise conjuntural, apresentamos os direcionadores para tomada de decisão, focados em mitigação de riscos e captura de margem.

1. Gestão de Suprimentos (Procurement)

  • O Fim do “Float Barato”

 A estratégia de compras baseada em vidro plano importado low-cost tornou-se inviável. Com a tarifa de 25% consolidada e o antidumping ativo, o preço do importado passou a funcionar apenas como um teto (price cap) para o nacional, e não mais como uma alternativa de volume.

Ação: Renegociar contratos de longo prazo com usinas locais, usando a ameaça de importação apenas como alavanca de negociação, não como volume real.

  • Diversificação no Varejo

O crescimento de 23% em utilidades domésticas (NCM 7013) sinalizou uma oportunidade de margem. Enquanto o vidro plano ficou caro, o produto acabado chinês continuou competitivo.

Ação: Varejistas e distribuidores devem ampliar o mix de produtos de mesa posta importados para compensar a compressão de margem na linha de construção civil.

2. Estratégia comercial e vendas

  • Hedge Geográfico obrigatório

 A concentração de 38% das vendas na Argentina representou um risco financeiro desproporcional (exposição cambial e inadimplência). 

O crescimento para os EUA e México (já somando 27%) provou que o produto brasileiro tem qualidade global.

Ação: Redirecionar esforços comerciais de vidros automotivos e fibras para o NAFTA (EUA/México) para diluir o “Risco Mercosul” abaixo de 30% até o fim do ano.

  • Aproveitamento da Logística do Sul

Com Santa Catarina respondendo por 18% das importações e o RS sendo rota de saída via fronteira seca, consolidou-se um hub logístico no Sul.

Ação: Para empresas com operação nacional, considerar a centralização de estoques em SC (benefícios fiscais de importação) para distribuir tanto o importado (via portos) quanto o nacional destinado à exportação (via fronteira seca), otimizando o frete de retorno.

3. Monitoramento regulatório

  • Radar Antidumping

O cerco se fechou. A investigação contra Malásia, Paquistão e Turquia indicou que o governo brasileiro fechará as rotas de triangulação.

Ação: Auditoria imediata na cadeia de fornecedores para garantir que nenhum parceiro esteja utilizando essas origens, evitando o risco de sobretaxas retroativas ou retenção de carga em zona primária.

CONCLUSÃO

O cenário de 2025 exigiu agilidade. Na importação, o jogo mudou de “quem tem o melhor preço FOB” para “quem navega melhor as barreiras tarifárias”. O mercado de vidros básicos fechou-se, forçando uma migração de valor para produtos acabados. 

Na exportação, o sucesso dependeu da manutenção da demanda automotiva regional, mas a exposição excessiva à Argentina exigiu uma estratégia urgente de diversificação de destinos.


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