O mercado brasileiro de fertilizantes no primeiro trimestre de 2026 apresentou um cenário de “estresse de custo e retração de volume” em categorias críticas.
Embora o valor total desembolsado (FOB) em produtos essenciais como a Ureia tenha registrado um incremento de 7,7%, o volume efetivamente internalizado sofreu uma retração de 11% no primeiro trimestre de 2026, segundo a Logcomex.
Este descolamento, em linha com alertas de agências como a Reuters, confirma uma inflação setorial acentuada, impulsionada pela instabilidade nas rotas do Oriente Médio e pelo aumento dos prêmios de risco logístico.
A análise indica que o mercado opera sob uma lógica de antecipação de riscos, onde o importador brasileiro paga mais para garantir estoques menores, temendo uma ruptura severa no fornecimento global decorrente do agravamento das tensões no Estreito de Ormuz.
Observou-se um aumento no valor FOB médio por tonelada. Em 2025, o preço médio situava-se em aproximadamente US$358/ton, saltando para US$434/ton em 2026 (alta de ~21%).
É possível que a redução no volume líquido importado seja reflexo direto da menor oferta da Nigéria, cujo fornecimento para o Brasil caiu de US$158 milhões para US$90 milhões no período de janeiro a março de 2026.
Esta categoria registrou o crescimento com salto de 171% em valor e 140% em volume, de acordo com a Logcomex.
Este movimento sugere uma estratégia de diversificação e substituição por parte dos importadores, que parecem estar a compensar a incerteza em outros nitrogenados através do aumento de estoques de fosfatados, liderados pelo fornecimento do Marrocos.
Apresentou resiliência com crescimento de 9,7% em volume. A estabilidade da China como principal fornecedor desta NCM parece oferecer um “porto seguro” momentâneo, embora o custo médio por tonelada também tenha sofrido elevação de aproximadamente 12%.
O mapeamento das origens indica uma redistribuição de forças:
Consolidou-se como parceiro estratégico vital, quase triplicando o fornecimento de superfosfatos para o mercado brasileiro.
A estabilidade política relativa do Marrocos em comparação com as nações do Golfo Pérsico torna-o a alternativa preferencial para mitigar riscos de abastecimento.
O aumento de mais de 100% no valor fornecido em adubos minerais (NCM 31055900) sugere que o Brasil está a recorrer a mercados tradicionais de moedas fortes e rotas logísticas mais seguras (Atlântico), apesar dos preços elevados.
A queda acentuada no volume da Nigéria levanta a hipótese de que problemas logísticos ou reorientação de carga em função da instabilidade no Mar Vermelho já estão a impactar a fluidez das entregas para o Hemisfério Sul.
Em um desdobramento crítico registrado na última segunda-feira (13/04/2026), o governo dos Estados Unidos oficializou o início de um bloqueio naval total aos portos iranianos.
A medida, anunciada após o fracasso das negociações de cessar-fogo em Islamabad, altera drasticamente a dinâmica de navegação no Estreito de Ormuz.
Em contrapartida, o Teerã reafirmou sua doutrina de negação de acesso, declarando que “nenhum porto na região será seguro” se as exportações iranianas forem impedidas.
Este cenário sugere que esta escalada tenha transformado o Golfo Pérsico em uma “zona de exclusão operacional” de fato, onde o tráfego marítimo, que anteriormente era de 130 embarcações/dia, colapsou para menos de 10 registros diários.
Para o importador brasileiro, isso representa não apenas um risco de atraso, mas a possibilidade real de interrupção física de contratos ativos.
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Informações de inteligência logística (Kpler/Bloomberg) indicam que aproximadamente 1 milhão de toneladas de fertilizantes encontram-se atualmente retidas em embarcações fundeadas no Golfo, impossibilitadas de transitar pelo estreito devido ao risco de minas navais e ataques de drones.
Diante do “Nó de Ormuz”, a estratégia brasileira de suprimentos parece estar migrando para origens geograficamente isoladas do conflito:
O crescimento exponencial nas importações de Superfosfatos (NCM 31031100) provenientes do Marrocos (salto de US$76 mi para US$210 mi) sugere um movimento de antecipação.
O Marrocos torna-se o fornecedor de segurança para o Brasil, operando rotas puramente atlânticas que evitam os gargalos do Oriente Médio.
A redução drástica no fornecimento de Ureia nigeriana (queda de ~43% em valor) levanta a hipótese de que, embora a Nigéria não esteja no Golfo, a escassez global e o desvio de frotas para rotas mais longas (via Cabo da Boa Esperança) estão encarecendo o frete a níveis que inviabilizam volumes maiores para o mercado brasileiro no curto prazo.
Uma análise conjuntural indica que o Brasil poderá enfrentar um “vácuo de oferta” no segundo semestre de 2026.
Com cerca de 460 mil toneladas de Ureia retidas no Golfo sob ameaça de bloqueio naval, a reposição de estoques para a safra 2026/27 torna-se crítica.
A manutenção do bloqueio por mais 30 dias poderá resultar em um efeito dominó de “blank sailings” (cancelamentos de escalas) nas rotas de longo curso, elevando o custo do frete marítimo para o Brasil em patamares superiores aos observados no auge de 2021.
Em um ambiente volátil a Inteligência Artificial torna-se essencial para aumentar a eficiência e sobrevivência estratégica nas operações de comércio exterior.
Algoritmos de IA podem simular cenários de custos de importação considerando variáveis de risco de guerra e prêmios de seguro, permitindo ao importador decidir entre a compra imediata (spot) ou a espera, baseando-se em probabilidade estatística de escassez.
Além disso, o uso de inteligência artificial na cadeia logística permite simular rotas alternativas (ex: desvio via Cabo da Boa Esperança) e obter análises estratégicas e insights acionáveis sobre as operações, NCMs, fornecedores, etc.
O mercado brasileiro encerrou o Q1 2026 sob o “Efeito Tesoura” (maior gasto para menor volume), evidenciando que a instabilidade no Estreito de Ormuz não é apenas um risco logístico, mas um fator de inflação estrutural. A dependência de rotas críticas exige uma revisão imediata da exposição geográfica do suprimento nacional.
A transição para fornecedores como Marrocos e Estados Unidos deixou de ser uma alternativa para tornar-se o principal mecanismo de mitigação de risco. O sucesso da safra 2026/27 está condicionado à consolidação dessas rotas “seguras”, capazes de evitar os gargalos do Oriente Médio.
Além disso, a capacidade de navegar neste cenário de incerteza reside na eliminação da assimetria de informação. A Inteligência Artificial é identificada como a ferramenta indispensável para simular custos de importação (Landed Cost), prever rupturas e otimizar rotas em tempo real, transformando o importador de um mero comprador de commodities em um gestor de riscos.