A indústria brasileira de alimentos e bebidas apresenta um cenário de resiliência e expansão em 2026, após encerrar 2025 com faturamento de R$ 1,4 trilhão (10,9% do PIB nacional), de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA).
No primeiro bimestre de 2026, o setor sustentou o superávit comercial brasileiro, sendo responsável por 84,2% do saldo total do país.
Contudo, a escalada militar entre Irã, Israel e EUA no Oriente Médio provocou um choque na cadeia de suprimentos de fertilizantes e uma volatilidade acentuada no Petróleo Brent.
Este relatório detalha como esses fatores externos, somados às variações no fluxo comercial global, impactam as margens industriais e as decisões de plantio e exportação para o restante do ano.
A tensão no Golfo Pérsico elevou o preço do Petróleo Brent, gerando um efeito de transmissão direta para a indústria de alimentos.
Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos(ABIA), a alta dos preços das embalagens pode ser considerada um dos principais fatores de pressão de custos.
Analisando o cenário, a hipótese é que o Brent elevado encarece os polímeros (derivados petroquímicos) e o frete logístico (diesel e bunker oil).
Isso cria um “piso” inflacionário que impede que a queda nos preços das commodities agrícolas chegue integralmente ao consumidor final.
O Brasil apresenta elevada exposição aos fertilizantes nitrogenados provenientes do Irã e de outros produtores do Oriente Médio.
Conforme dados do ComexStat (MDIC), apenas no primeiro bimestre de 2026, as importações de fertilizantes do Irã somaram R$21,6 milhões, uma alta exponencial de 9.720,8% em relação ao mesmo período de 2025.
Este volume representa quase um terço do total importado em todo o ano anterior.
Neste cenário, pode-se avaliar o stockpiling (formação de estoques de segurança) por parte dos produtores brasileiros, antecipando-se a um possível longo bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde circulam ureia e amônia essenciais para as safras de milho e trigo.
O fluxo de exportação de trigo em grão (NCM 1001.99) recuou de US$268,7 milhões no primeiro bimestre de 2025 para US$136,5 milhões no mesmo período deste ano.
Observa-se a abertura de mercados na Nigéria (US$26,6 mi) e Uganda (US$13,1 mi), que não registraram compras em 2025.
Países de destino das exportações brasileiras – Jan/Fev 2026
(NCM – Outros trigos e misturas de trigo com centeio, exceto para semeadura – 10019900)
| País | Valor FOB Jan/Fev 2026 (US$) | Valor FOB Jan/Fev 2025 (US$) |
| Vietnã | 51 Mi | 135,6 Mi |
| Nigéria | 26,6 Mi | 0 |
| Bangladesh | 25 Mi | 13 Mi |
| Uganda | 13,1 Mi | 0 |
| Quênia | 12,1 Mi | 0 |
De acordo com o ComexStat, o Brasil reduziu a dependência da Argentina (queda de US$256 mi para US$109,4 mi) e inseriu a Rússia como player relevante (US$15,3 mi em 2026 contra zero em 2025).
Países de origem das importações brasileiras de trigo (NCM 10019900)
| País | Valor FOB Jan/Fev 2026 (US$) | Valor FOB Jan/Fev 2025 (US$) |
| Argentina | 109,4 Mi | 256 Mi |
| Rússia | 15,3 Mi | 0 |
| Paraguai | 14,8 Mi | 8,8 Mi |
| Uruguai | 13 Mi | 30 Mi |
| EUA | 0 | 4 Mi |
Insight: A substituição da origem russa pela argentina sugere uma busca por arbitragem de preços no mercado global de trigo.
O milho em grão (NCM 1005.9010) registrou crescimento de 15%, alcançando US$1,26 bilhão em exportações no bimestre.
O Vietnã tornou-se o principal destino (US$311,5 mi), enquanto o Irã manteve-se resiliente com US$308,9 mi.
| Exportações | ||
| País | Valor FOB Jan/Fev 2026 (US$) | Valor FOB Jan/Fev 2025 (US$) |
| Vietnã | 311,5 Mi | 80 Mi |
| Irã | 309 Mi | 388,4 Mi |
| Egito | 173 Mi | 267,4 Mi |
| Argélia | 122 Mi | 68,7 Mi |
| Malásia | 58 Mi | 22 Mi |
A produção de milho é a mais sensível à alta dos fertilizantes nitrogenados (ureia).
Se o conflito no Irã persistir, o custo da safra 2026/27 pode forçar uma migração de área para a soja, reduzindo a oferta interna de milho no médio prazo.
As importações registraram queda de 35% no primeiro bimestre de 2026 (US$25,3 Mi), em comparação com o mesmo período do ano passado, quando registrou FOB de US$39,3 milhões.
| Importações | |||
| NCM | Descrição | Valor FOB Jan/Fev 2026 (US$) | Valor FOB Jan/Fev 2025 (US$) |
| 10059010 | Milho em grão, exceto para semeadura | 25,3 Mi | 39,3 Mi |
| 10051000 | Milho para semeadura | 1,3 Mi | 1,5 Mi |
Houve um aumento nas exportações de arroz com casca (NCM 1006.1092), saltando de US$23,2 mi para US$54,1 mi. A Venezuela emergiu como o maior comprador (US$38,4 mi), saindo de uma base zero em 2025.
| Exportações | |||
| NCM | Descrição | Valor FOB Jan/Fev 2026 (US$) | Valor FOB Jan/Fev 2025 (US$) |
| 10063011 | Arroz semibranqueado ou branqueado, parboilizado, polido ou brunido | 3,9 Mi | 6,8 Mi |
| 10063021 | Arroz semibranqueado ou branqueado, não parboilizado, polido ou brunido | 16,5 Mi | 15,2 Mi |
| 10062010 | Arroz descascado (arroz cargo ou castanho), descascado, parboilizado | 48,4 mil | 243,3 mil |
| 10061092 | Arroz com casca (arroz paddy), não parboilizado | 54 Mi | 23,2 Mi |
Dados do ComexStat apontam redução nas compras do Mercosul (Paraguai e Uruguai caíram mais de 50%). Este cenário correlaciona-se com a queda de 2,36% no preço do arroz no varejo interno, reportada pelo IBGE.
| Países de origem das importações brasileiras | ||
| País | Valor FOB Jan/Fev 2026 (US$) | Valor FOB Jan/Fev 2025 (US$) |
| Paraguai | 15,1 Mi | 30,5 Mi |
| Uruguai | 6,4 Mi | 18,4 Mi |
| Argentina | 1,2 Mi | 4,3 Mi |
| Itália | 838 Mil | 825,2 Mil |
| Vietnã | 209 Mil | 184,2 Mil |
O café não torrado (NCM 0901.1110) registrou queda de exportação para os EUA (de US$380,6 mi para US$279,7 mi), enquanto a Alemanha ampliou a liderança.
| Países de destino das exportações brasileiras | ||
| País | Valor FOB Jan/Fev 2026 (US$) | Valor FOB Jan/Fev 2025 (US$) |
| Alemanha | 313,6 Mi | 276,7 Mi |
| EUA | 279,7 Mi | 380,6 Mi |
| Itália | 212,7 Mi | 197,8 Mi |
| Bélgica | 143,7 Mi | 166,7 Mi |
| Japão | 137,3 Mi | 148,7 Mi |
| Exportações brasileiras de café (gerais) | |||
| NCM | Descrição | Valor FOB Jan/Fev 2026 (US$) | Valor FOB Jan/Fev 2025 (US$) |
| 09011110 | Café não torrado, não descafeinado, em grão | 2 BI | 2,3 BI |
| 21011110 | Café solúvel, mesmo descafeinado | 158 MI | 196 MI |
Nas importações, cresce o consumo de cafés torrados premium (NCM 0901.2100) da Suíça e França, indicando que, apesar da inflação, o segmento de alta renda mantém o consumo de importados.
| Importações gerais | |||
| NCM | Descrição | Valor FOB Jan/Fev 2026 (US$) | Valor FOB Jan/Fev 2025 (US$) |
| 09012100 | Café torrado, não descafeinado | 14,7 Mi | 11,8 Mi |
| 09011110 | Café não torrado, não descafeinado, em grão | 449,2 Mil | 5,710 Mil |
| 09012200 | Café torrado, descafeinado | 776,7 Mil | 497,4 Mil |
De acordo com o IBGE, o IPCA de fevereiro de 2026 foi de 0,70%, mas o grupo de Alimentação e Bebidas subiu apenas 0,26%. Itens como óleo de soja (-2,62%) e café moído (-1,20%) ajudaram a conter o índice.
Enquanto o preço do alimento na gôndola cai ou se estabiliza, o faturamento nominal da indústria subiu 8,02% em 2025 (ABIA).
Isso indica que o crescimento está sendo puxado pelo volume e pelo mercado interno (R$1,02 trilhão), mas as margens estão sob ameaça devido ao custo de energia (Brent) e insumos agrícolas (fertilizantes).
Hedge de insumos e logística
Dada a volatilidade do Petróleo Brent, a indústria deve considerar contratos de proteção para custos de embalagens plásticas e fretes marítimos.
A deflação de commodities no varejo não deve ser interpretada como alívio de margem, mas como pressão competitiva.
A forte alta de 9.720,8% nas compras de fertilizantes nitrogenados do Irã no bimestre configura um risco de ‘ponto único de falha’ se o conflito se prolongar.
Recomenda-se a imediata diversificação de fornecedores (Marrocos, Canadá e Nigéria) para garantir a viabilidade da safra 2026/27.
Os dados mostram que Vietnã (Milho) e Venezuela (Arroz) são os mercados de maior tração imediata.
Estratégias comerciais devem priorizar estes destinos para compensar a desaceleração da demanda em mercados tradicionais como os EUA (Café e Trigo).
Com o IPCA de alimentos em patamares baixos (0,26%), a indústria terá dificuldade em repassar novos aumentos de custos logísticos derivados do Brent. O foco deve ser a eficiência operacional e a renegociação de embalagens.
O Brasil depende de importações para mais de 80–90% dos fertilizantes que consome, e o Oriente Médio — com destaque para o Irã — é um elo estratégico no suprimento de ureia.
Por isso, recomenda-se que a indústria busque fornecedores alternativos (Marrocos, Canadá, Nigéria, entre outros) para mitigar eventuais bloqueios no Estreito de Ormuz.
Além disso, com o Petróleo Brent pressionando custos de embalagens e fretes, a estratégia de preços deve focar na eficiência operacional.
A deflação de commodities no varejo pode impedir repasses imediatos de custos ao consumidor, exigindo maior rigor no controle de margens.
O cenário indica oportunidade de expansão em outros mercados, o que leva à recomendação de priorização do Sudeste Asiático (Vietnã/Malásia) e Caribe/Venezuela, que demonstraram maior apetite por cereais brasileiros no início de 2026, servindo como “hedge” para a desaceleração da demanda em mercados tradicionais (EUA/UE).
Realizar o monitoramento da Safra 2026/27 também é recomendado, pois o custo da ureia pode provocar um shift de área do milho para a soja.
Antecipar contratos de compra de milho é recomendado para evitar a escassez de ração animal no final de 2026.