EUA e Venezuela: o novo eixo energético das Américas

O ano de 2026 inicia-se com um cenário que promove instabilidade e incerteza na economia e, claramente, no futuro do […]

O ano de 2026 inicia-se com um cenário que promove instabilidade e incerteza na economia e, claramente, no futuro do planeta. Com os acontecimentos envolvendo os Estados Unidos e a Venezuela, abre-se espaço para uma análise sobre como será a relação comercial no que se refere às negociações do mercado energético global. Neste report, destrincharemos os acontecimentos e suas implicações para o comércio exterior brasileiro e para suas consequentes relações.

Recapitulando: 2025 para o Brasil

O ano de 2025 revelou um Brasil com produção recorde, mas com vulnerabilidades estruturais no refino e no valor de exportação.

Exportação de Óleos Brutos (NCM 2709.00.10)

  • Produção e Valor: O Brasil atingiu grande nível de produção de petróleo ao longo do ano, tendo, em novembro, batido o recorde de 3,77 milhões de barris de petróleo por dia. Contudo, o valor exportado caiu 9,05%, passando de US$ 44,96 bilhões (2024) para US$ 40,89 bilhões (2025).
  • Volume: O volume físico exportado manteve-se estável em aproximadamente 89 milhões de toneladas, indicando uma queda no preço médio do barril ou mudanças no mix de compradores.

Geopolítica guiando novos eixos comerciais

A intervenção norte-americana na Venezuela coloca um enorme ponto de interrogação sobre como será o futuro do setor energético global. A Venezuela, detentora da maior reserva de petróleo do planeta, e com uma infraestrutura defasada e que não permitia a extração acelerada de petróleo, agora está prestes a ter suas reservas novamente exploradas por petroleiras estadunidenses. 

Parceiros comerciais históricos da Venezuela, Rússia e China olham com atenção e desconfiança sobre como isso impactará seus fornecimentos de petróleo. Estados Unidos, por outro lado, enxerga nisso a oportunidade de reconquistar vantagem econômica e mercadológica global. 

Tudo isso gera algumas preocupações. A presença de navios de guerra norte-americanos no Caribe gera interceptações de petroleiros e eleva os custos de seguro (War Risk Insurance).

Redesenho da cadeia de fornecimento de petróleo

Importação de Derivados e Dependência dos EUA

Entre janeiro e novembro de 2025, os Estados Unidos se mantiveram como o principal provedor de produtos energéticos para o Brasil, com US$ 7,57 bilhões em FOB importado, 36% do share total. Ao longo de todo o ano, pudemos destacar algumas análises a respeito desta relação comercial:

  • Diesel (NCM 2710.19.21): O valor importado dos EUA dobrou, saltando de US$ 1,43 bilhão (2024) para US$ 2,86 bilhões (2025).
  • Óleos Brutos: O Brasil importou US$ 1,76 bilhão em óleos brutos dos EUA em 2025 para compor seu mix de refino.
  • Gargalo de Refino: A capacidade nacional de refino cresce a apenas 0,37% ao ano, perpetuando a exportação de óleo bruto e a importação de derivados caros.

Relação Comercial Brasil x Venezuela (2025)

Com os novos acontecimentos vindos da Venezuela, é preciso atentar-se às possíveis implicações que isto pode trazer ao comércio global. Dados da Logcomex apontam que, para o Brasil, diretamente, este impacto pode ser pouco sentido:

  • Baixa Relevância: A Venezuela representou apenas 0,2% dentre as exportações gerais e 0,1% de todas as importações brasileiras em 2025.
  • Quedas acentuadas: houve queda de 32% no valor exportado e 23% nas importações (Jan-Nov).
  • Colapso nos Derivados: As importações de derivados venezuelanos caíram 78%, despencando de US$ 38 milhões (2024) para apenas US$ 8 milhões (2025).

Brasil como solução para demanda de petróleo da China

Com a intervenção americana, os contratos da China com a PDVSA — que representam 80% da produção estatal venezuelana — estão sob risco iminente de interrupção.

  • Interrupção do Fluxo Oriental: O controle dos EUA sobre a Venezuela corta o suprimento chinês de óleo pesado (anteriormente exportado via canais paralelos) para priorizar as refinarias do Golfo do México.
  • O papel do Brasil: O Brasil surge como o principal originador relevante de petróleo para a China fora dos eixos de influência direta. Embora em 2025 o Brasil tenha exportado menos petróleo do que em 2024, queda de 6%, a China foi o principal destino do óleo brasileiro, com um FOB 4x maior do que para os Estados Unidos, 2º colocado no ranking.
  • Vantagens Competitivas: Além da estabilidade institucional e da ausência de sanções, o Brasil possui petróleo de alta qualidade e o pré-sal conta com participação direta de petroleiras chinesas.
  • Rerouting Global: Pequim deve buscar o óleo brasileiro com agressividade para suprir o déficit venezuelano, o que pode elevar o volume exportado pelo Brasil, mas também aumentar a dependência estratégica em relação ao mercado chinês.

A reabertura da Venezuela sob influência dos EUA cria um excesso de oferta no longo prazo e reduz a vantagem competitiva do Brasil no mercado americano.

O Brasil deve aproveitar sua posição de “backup” para a China para negociar melhores termos comerciais, enquanto acelera investimentos em refino nacional para mitigar a dependência de derivados dos EUA (que custaram US$ 2,8 bi em diesel apenas em 2025). O monitoramento do custo de frete no Caribe nos próximos 90 dias é crítico para empresas de metalurgia e químicas que dependem de insumos venezuelanos.


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