O comércio do Brasil com Reino Unido, Croácia, Panamá e Gana reúne perfis comerciais complementares e geograficamente distintos, que vão de uma economia europeia madura a um hub logístico centro-americano e a dois mercados de fronteira.
No acumulado de janeiro a maio de 2026, esses fluxos convivem com trajetórias divergentes: alguns em expansão acelerada, outros em retração relevante, dentro de um cenário macro brasileiro de corrente de comércio em alta.
O Reino Unido segue como o principal parceiro entre os quatro em volume, com uma pauta exportadora brasileira ancorada em ouro, soja e café e uma pauta importadora concentrada em bens de alto valor agregado, como uísques, turborreatores e produtos farmacêuticos.
O Panamá caracteriza-se pelo forte superávit estrutural do Brasil, sustentado pelo abastecimento de óleo combustível naval.
Gana concentra a exportação brasileira em proteína de aves e recebe do Brasil, na direção inversa, sobretudo petróleo bruto.
A Croácia opera nos menores volumes entre eles, com exportações lideradas por café e importações de manufaturas industriais em aceleração.
É importante registrar que, no primeiro semestre de 2026, nem todos esses fluxos cresceram.
A leitura correta dos registros mostra retração nas exportações brasileiras para Reino Unido, Croácia e Gana e nas importações brasileiras vindas de Reino Unido e Gana, contrastando com a forte expansão das vendas ao Panamá. Essa heterogeneidade é o ponto central da análise.
O ambiente de comércio exterior brasileiro no acumulado até maio de 2026 combina crescimento das exportações e superávit em expansão. Segundo a Secex/MDIC, a corrente de comércio brasileira somou US$ 264,48 bilhões no período, alta de 6,2% frente a igual intervalo de 2025.
As exportações totalizaram US$ 148,57 bilhões (crescimento de 8,7%) e as importações, US$ 115,91 bilhões (alta de 3,2%), resultando em superávit de US$ 32,66 bilhões, avanço de 34,2% na comparação anual.
O desempenho foi puxado pela agropecuária e pela indústria de transformação, com destaque para soja e minério de cobre, enquanto a indústria extrativa apresentou recuo pontual em maio.
Esse pano de fundo ajuda a contextualizar esses fluxos, mas não se traduz de forma uniforme em cada país.
As relações bilaterais aqui analisadas respondem a fatores setoriais específicos, como o ciclo do ouro no Reino Unido, o bunkering no Panamá e o petróleo importado de Gana.
Você sabia? O Reino Unido é o maior exportador líquido de serviços financeiros do mundo. Em 2024, o setor gerou um superávit comercial de cerca de US$ 127 bilhões (£95 bilhões), mais do que Singapura, Suíça e Luxemburgo somados, segundo a TheCityUK. O país também abriga uma das maiores fabricantes de motores aeronáuticos do mundo.
O Reino Unido é o maior parceiro entre os quatro, mas seus fluxos com o Brasil recuaram no acumulado até maio de 2026. As exportações brasileiras somaram US$ 1,73 bilhão, queda de 3,9% frente a 2025, enquanto as importações caíram 15,6%, para US$ 1,35 bilhão.
A pauta exportadora é liderada pelo ouro, que cresceu 37,1% e responde pela maior fatia isolada das vendas, seguido por soja e café.
Do lado das importações, o recuo do gás natural liquefeito (queda de 55,9%) foi determinante para a contração da pauta, parcialmente compensado pela alta de uísques e pela entrada de turborreatores como novo fluxo relevante.
| NCM | Descrição do produto | FOB US$ 2026 | FOB US$ 2025 | Var. YoY |
|---|---|---|---|---|
| 7108.13.10 | Ouro em barras, fios e perfis de seção maciça | 467.289.163 | 340.959.836 | +37,1% |
| 1201.90.00 | Soja, mesmo triturada, exceto para semeadura | 165.475.350 | 135.060.960 | +22,5% |
| 0901.11.10 | Café não torrado, não descafeinado, em grão | 150.396.034 | 145.155.554 | +3,6% |
| 8802.40.90 | Aviões e veículos aéreos de peso superior a 15.000 kg, vazios | 85.500.000 | 0 | novo fluxo |
| 1602.32.20 | Preparações e conservas de galos e galinhas | 64.461.018 | 73.762.687 | -12,6% |
| NCM | Descrição do produto | FOB US$ 2026 | FOB US$ 2025 | Var. YoY |
|---|---|---|---|---|
| 2208.30.20 | Uísques, em embalagens de capacidade inferior ou igual a 2 litros | 99.960.792 | 78.307.280 | +27,7% |
| 8411.12.00 | Turborreatores de empuxo superior a 25 kN | 84.306.502 | 0 | novo fluxo |
| 2711.11.00 | Gás natural liquefeito | 64.353.121 | 146.031.480 | -55,9% |
| 3002.49.92 | Vacinas, toxinas e culturas de microrganismos para saúde humana | 38.173.138 | 24.291.974 | +57,1% |
| 3004.90.69 | Outros medicamentos com compostos heterocíclicos | 28.007.716 | 30.249.548 | -7,4% |
Você sabia? A Croácia tem cerca de 4 milhões de habitantes e abriga o carro elétrico de produção mais rápido do mundo. Em julho de 2025, ele atingiu 431 km/h na Alemanha, novo recorde mundial de velocidade máxima para veículos elétricos de produção. Custa 2,3 milhões de euros por unidade e é projetado e fabricado em Zagreb.
A Croácia movimenta os menores volumes entre os quatro parceiros e apresenta as trajetórias mais divergentes entre exportação e importação. As exportações brasileiras recuaram 34,1%, para US$ 35,1 milhões, pressionadas pela forte queda no açúcar de cana (menos 59,8%), enquanto o café avançou 15,8% e assumiu a liderança da pauta.
Em sentido oposto, as importações brasileiras vindas da Croácia cresceram 39,9%, para US$ 25,1 milhões, impulsionadas por medicamentos e pela entrada de manufaturas industriais como prensas e quadros elétricos, sinalizando diversificação de fornecedores europeus secundários.
| NCM | Descrição do produto | FOB US$ 2026 | FOB US$ 2025 | Var. YoY |
|---|---|---|---|---|
| 0901.11.10 | Café não torrado, não descafeinado, em grão | 13.151.913 | 11.357.294 | +15,8% |
| 1701.14.00 | Outros açúcares de cana | 12.120.908 | 30.134.524 | -59,8% |
| 2401.20.30 | Tabaco não manufaturado, total ou parcialmente destalado | 2.213.861 | 2.933.749 | -24,5% |
| 2403.99.90 | Outros produtos de tabaco e sucedâneos, manufaturados | 1.083.264 | 0 | novo fluxo |
| 6402.20.00 | Calçados de borracha ou plásticos, com parte superior em tiras | 639.294 | 284.024 | +125,1% |
| NCM | Descrição do produto | FOB US$ 2026 | FOB US$ 2025 | Var. YoY |
|---|---|---|---|---|
| 3004.90.79 | Outros medicamentos com compostos heterocíclicos | 7.908.612 | 4.978.101 | +58,9% |
| 8411.99.00 | Partes de outras turbinas a gás | 3.171.429 | 3.899.880 | -18,7% |
| 8477.59.11 | Prensas para moldar borracha ou plástico | 3.059.086 | 0 | novo fluxo |
| 8537.10.90 | Quadros com aparelhos interruptores de circuitos elétricos | 1.677.278 | 0 | novo fluxo |
| 8402.90.00 | Partes de caldeiras de vapor e de água superaquecida | 1.111.130 | 0 | novo fluxo |
Você sabia? O Canal do Panamá registrou receita de US$ 5,7 bilhões no ano fiscal de 2025, alta de 14,4% sobre o ano anterior e o melhor resultado financeiro de sua história, com lucro líquido de US$ 4,1 bilhões. Depois dos anos de seca que limitaram os trânsitos em 2023 e 2024, os níveis de água normalizaram e os trânsitos de embarcações cresceram 19,3%. Cerca de 6% de todo o comércio marítimo global passa pelo canal.
O Panamá é o fluxo mais dinâmico entre os quatro pelo lado das exportações. As vendas brasileiras cresceram 27,5%, para US$ 842,4 milhões, quase inteiramente explicadas pelo óleo combustível (fuel oil), que avançou 47,9% e responde pela ampla maioria da pauta, refletindo o papel do país no abastecimento de embarcações e na reexportação.
Já as importações brasileiras vindas do Panamá são estruturalmente pequenas, US$ 8,5 milhões, alta de 4,5%, concentradas em desperdícios metálicos e insumos industriais. O resultado é um superávit expressivo e persistente do Brasil na relação.
| NCM | Descrição do produto | FOB US$ 2026 | FOB US$ 2025 | Var. YoY |
|---|---|---|---|---|
| 2710.19.22 | Óleo combustível (fuel oil) | 675.904.694 | 457.117.576 | +47,9% |
| 2710.19.11 | Querosenes de aviação | 20.920.365 | 29.099.386 | -28,1% |
| 8411.91.00 | Partes de turborreatores ou de turbopropulsores | 12.548.998 | 5.103.772 | +145,9% |
| 2710.19.21 | Gasóleo (óleo diesel) | 6.082.573 | 6.565.797 | -7,4% |
| 3004.90.69 | Outros medicamentos com compostos heterocíclicos | 4.965.976 | 7.466.498 | -33,5% |
| NCM | Descrição do produto | FOB US$ 2026 | FOB US$ 2025 | Var. YoY |
|---|---|---|---|---|
| 7602.00.00 | Desperdícios e resíduos de alumínio | 4.401.307 | 5.226.875 | -15,8% |
| 7801.91.00 | Chumbo com antimônio como segundo elemento predominante | 950.890 | 198.065 | +380,1% |
| 3907.99.91 | Outros poliésteres em líquidos e pastas | 520.008 | 265.684 | +95,7% |
| 3214.90.00 | Indutos não refratários para alvenaria | 402.258 | 243.380 | +65,3% |
| 9701.91.00 | Quadros, pinturas e desenhos feitos inteiramente à mão | 380.000 | 0 | novo fluxo |
Você sabia? Gana exportou um recorde de US$ 31,1 bilhões em 2025, crescimento de 62% sobre 2024. O ouro liderou com cerca de US$ 20 bilhões, quase o dobro do ano anterior, e sustentou um superávit comercial de US$ 13,6 bilhões. O país também é o segundo maior produtor de cacau do mundo, mas em 2025 foi o ouro que dominou a pauta de exportação.
Gana combina uma pauta exportadora brasileira fortemente concentrada em carne de aves com uma pauta importadora dominada por petróleo.
As exportações do Brasil recuaram 4,2%, para US$ 149,9 milhões. Os cortes de frango cresceram de forma expressiva, com destaque para coxas e sobrecoxas (mais 56,8%), enquanto pés e patas de galinha registraram abertura de mercado, saltando de uma base residual em 2025 para US$ 13,2 milhões em 2026. Em sentido contrário, o açúcar caiu 64,4% e puxou o total para baixo.
As importações brasileiras vindas de Gana caíram 21,2%, para US$ 148,4 milhões, mas são quase inteiramente explicadas pelo óleo bruto de petróleo, que avançou 80,1% e supera com folga o cacau e seus derivados na composição da pauta.
| NCM | Descrição do produto | FOB US$ 2026 | FOB US$ 2025 | Var. YoY |
|---|---|---|---|---|
| 0207.14.12 | Coxas com sobrecoxas não desossadas de galinha, congeladas | 28.801.642 | 18.368.435 | +56,8% |
| 0207.14.19 | Outros pedaços e miudezas não desossados de galinha, congelados | 19.651.294 | 7.121.141 | +176,0% |
| 1601.00.00 | Enchidos e produtos semelhantes, de carne ou miudezas | 16.853.917 | 18.745.653 | -10,1% |
| 0207.14.34 | Pés e patas de galinha, comestíveis, congelados | 13.172.470 | 337.372 | abertura de mercado |
| 1701.99.00 | Outros açúcares de cana ou beterraba | 12.347.087 | 34.662.611 | -64,4% |
| NCM | Descrição do produto | FOB US$ 2026 | FOB US$ 2025 | Var. YoY |
|---|---|---|---|---|
| 2709.00.10 | Óleos brutos de petróleo | 129.206.554 | 71.731.385 | +80,1% |
| 1803.20.00 | Pasta de cacau, total ou parcialmente desengordurada | 10.670.064 | 11.813.970 | -9,7% |
| 1805.00.00 | Cacau em pó, sem adição de açúcar ou edulcorantes | 3.265.939 | 525.162 | +521,9% |
| 7602.00.00 | Desperdícios e resíduos de alumínio | 2.772.605 | 361.689 | +666,6% |
| 5503.20.90 | Outras fibras de poliésteres, descontínuas, não cardadas | 1.504.921 | 3.173.371 | -52,6% |
A análise integrada dos quatro mercados aponta caminhos e pontos de atenção distintos para empresas que operam nessas rotas no segundo semestre de 2026:
A exportação brasileira ao país depende quase inteiramente do óleo combustível naval. Qualquer oscilação nos níveis operacionais do Canal do Panamá, nos preços de bunker ou na demanda de frotas internacionais tende a impactar diretamente o resultado da pauta, dada a baixa diversificação atual.
Os registros sugerem que a relação importadora com Gana está atrelada ao ciclo do petróleo bruto, que responde pela maior parte das compras. Empresas ligadas ao cacau devem observar que esse fluxo, embora relevante, tem peso menor no total e apresentou recuo em derivados específicos.
A queda das exportações ao Reino Unido e à Croácia, somada ao avanço das importações croatas, sugere um rearranjo de fornecedores. Exportadores de commodities agrícolas para a Europa devem reforçar rastreabilidade e compliance ambiental diante do rigor crescente das barreiras não tarifárias no continente.
O crescimento dos cortes de frango sustenta a presença brasileira no mercado ganês mesmo com a retração do açúcar. Consolidar logística e relacionamento comercial nesse segmento tende a ser um diferencial competitivo na África Ocidental.