Carnaval 2026: Análise das importações de adereços

O mercado brasileiro de artigos carnavalescos e insumos para festividades apresenta uma trajetória de crescimento resiliente no acumulado de janeiro […]

O mercado brasileiro de artigos carnavalescos e insumos para festividades apresenta uma trajetória de crescimento resiliente no acumulado de janeiro a novembro de 2025, com um incremento de aproximadamente 10,8% no valor total importado (FOB) em comparação ao mesmo período de 2024. 

Este avanço é impulsionado primordialmente pelo NCM 9505.90.00 (Artigos para festas e carnaval), que registrou um salto de 36%, sinalizando uma antecipação de demanda para o Carnaval 2026 e a profissionalização das cadeias de suprimento.

Observa-se uma mudança estrutural na logística de entrada: enquanto os hubs tradicionais de consumo (como o Nordeste) registraram quedas acentuadas nas importações diretas, a Região Sul (Porto de Itajaí) consolidou-se como a principal porta de entrada nacional, com um crescimento expressivo de 71%. 

O Sudeste mantém-se como o núcleo de inteligência logística e redistribuição, processando o maior volume financeiro e atendendo a eventos de magnitude global, como os desfiles do Rio de Janeiro e São Paulo, além de prover suporte a eventos regionais de grande escala como o Festival de Parintins no Norte.

Panorama nacional de importações e desempenho por categoria

A análise por códigos tarifários (NCM) revela uma tendência de substituição de produtos e foco em insumos estruturais. O valor total das importações nos itens monitorados saltou de US$37,3 milhões em 2024 para US$41,4 milhões em 2025.

  1. Liderança em artigos de festa (NCM 9505.90.00): Com um aumento de US$12,5 MI para US$17,1 MI (+36%), esta categoria é o principal motor do setor. O crescimento sugere um aumento na sofisticação das fantasias e na escala das festas de rua (blocos).
  1. Insumos de luxo e estruturais (NCM 6702 e 6701): As flores artificiais e adornos para carros alegóricos cresceram 13% (US$8,1 MI), indicando investimentos contínuos na estética das escolas de samba. Por outro lado, o mercado de penas e plumagens (NCM 6701) manteve-se estagnado em US$328,1 mil, possivelmente devido à substituição por materiais sintéticos ou reutilização de estoques.
  2. Retração em acessórios de baixo valor agregado (NCM 6505.00.22): A queda de 40% nas importações de gorros de fibras sintéticas (de US$5,7 MI para US$3,4 MI) é o ponto de maior atenção. Este movimento pode indicar uma saturação deste nicho ou uma migração do consumidor para acessórios mais elaborados, como tiaras e coroas (NCM 6505.00.90), que cresceram 14%.

3. Chapéus e adereços capilares: Observa-se uma queda nos chapéus de palha para fantasias (-24%), contrastando com o crescimento estável de tiaras e acessórios capilares (+14%, atingindo US$8,8 MI). Isso reflete a tendência de moda carnavalesca focada em adereços de cabeça de fácil uso e alta visibilidade para o público geral.

 Performance regional comparativa: A geografia do fluxo comercial

A análise dos dados portuários revela uma disparidade significativa entre os pontos de entrada das mercadorias e os centros de consumo final, evidenciando uma reestruturação da malha logística brasileira para artigos festivos em 2025.

A análise a seguir contempla o comparativo do período de Janeiro a Novembro de 2024 vs. o mesmo período de 2025:

1. Região Sul (O Hub de entrada Nacional)

O Porto de Itajaí consolidou-se como o principal nó logístico para o setor. Com um crescimento de 71% (saltando de US$4,7 MI para US$8,1 MI), Santa Catarina não atua como consumidor final proporcional a esse volume, mas sim como o maior polo importador do Brasil. A eficiência tributária e portuária da região atrai o fluxo que é, posteriormente, redistribuído para os mercados do Sudeste e Nordeste.

2. Região Sudeste (O coração logístico e consumidor)

A região representa 43% do impacto econômico do Carnaval no país.

Porto de Santos: Registrou estabilidade (US$8,9 MI).

Porto do Rio de Janeiro: Apresentou um crescimento robusto de 24% (de US$5 MI para US$6,2 MI), sugerindo um fortalecimento da importação direta para abastecer o complexo industrial das Escolas de Samba e o crescente Carnaval de rua fluminense.

Função estratégica: São Paulo e Rio de Janeiro operam como os principais centros de inteligência e redistribuição nacional, abastecendo inclusive as regiões Norte e Centro-Oeste.

3. Região Nordeste (descompasso entre consumo e importação direta)

Observa-se um fenômeno de “nacionalização” da compra no Nordeste. Apesar da Bahia possuir um impacto econômico projetado de R$ 7,0 bilhões para 2025, as importações diretas despencaram:

  • Porto de Suape: Queda drástica de -62% (de US$4 MI para US$1,5 MI).
  • ALF Salvador: Queda de -35% (de US$476,5 mil para US$311,3 mil). Este cenário indica que os grandes players do Carnaval nordestino estão optando por adquirir insumos já internalizados por importadores do Sul e Sudeste, em vez de realizar operações diretas de importação.

4. Região Norte (demanda cultural e dependência de fluxo)

As importações via Porto de Manaus recuaram 8% (de US$240,3 mil para US$222 mil). A dinâmica regional é fortemente influenciada pelo Festival de Parintins, cujos adornos elaborados e carros alegóricos dependem de insumos especializados. 

A queda na importação direta reforça a característica de Manaus como um hub regional que recebe mercadorias redistribuídas de São Paulo e Rio de Janeiro para atender também os estados de Roraima, Rondônia e Amapá.

5. Região Centro-Oeste

Com apenas 1% do impacto econômico nacional, a região mantém uma estrutura de abastecimento quase totalmente dependente da redistribuição logística dos centros do Sul e Sudeste, sem registros de importação direta expressiva para o setor.

Análise do fluxo logístico e implicações de mercado

A configuração dos dados aponta para uma centralização logística estratégica. O fato de Santa Catarina (Porto de Itajaí) crescer 71% enquanto os pontos de consumo direto (como Nordeste e Norte) apresentam quedas de dois dígitos, demonstra que o mercado brasileiro de comércio exterior para artigos festivos está se tornando mais dependente de grandes tradings e operadores logísticos do Sul/Sudeste.

Isso implica em:

  • A disponibilidade de produtos no varejo regional (Norte/Nordeste) está mais sujeita aos custos de frete interno e eficiência da malha rodoviária/cabotagem nacional do que às variações diretas do frete internacional nestas regiões.
  • O Sudeste (SP/RJ) permanece como o fiel da balança, controlando 43% da economia do setor e funcionando como o principal pulmão de estoque para o país.

Principais NCMs importadas

NCMDescrição ResumidaJan-nov 2024 (FOB)Jan-nov 2025 (FOB)Var. %
9505.90.00Artigos para festas e carnavalUS$ 12,5 MIUS$ 17,1 MI36%
67010000Penas e plumagens preparadasUS$ 328,1 milUS$328,1 mil0%
67029000Flores artificiais de outras matérias | Adornos estruturais em carros alegóricosUS$7,2 MIUS$ 8,1 MI13%
65040010Chapéus de palha fina (manila, panamá) | Chapéus de palha para fantasiasUS$992,7 milUS$ 745 mil24%
65040090Chapéus estruturados para fantasiasUS$2,8 MIUS$2,8 MI-3%
65050022Gorros de fibras sintéticas | Gorros de fantasiaUS$5,7 MIUS$3,4 MI-40%
65050090Outros artigos semelhantes; coifas para cabelo | Tiaras, tiara-coroas, acessórios capilaresUS$7,7 MIUS$8,8 MI14%
8308.90.20Contas e lantejoulas (metais)US$ 136,0 milUS$ 121,7 mil-10%
Fonte: Logcomex

A análise dos fluxos de comércio exterior para o ciclo carnavalesco 2024-2025 revela uma maturidade logística que exige atenção estratégica. 

A centralização das importações no polo catarinense (Sul), em detrimento da importação direta nos centros de consumo (Norte/Nordeste), redefine o perfil de risco e oportunidade para os players do setor.

1. Oportunidades de Portfólio:

Alta performance de acessórios: O crescimento expressivo em “Artigos para festas” (+36%) e “Tiaras/Acessórios capilares” (+14%) indica uma mudança no comportamento do consumidor, que busca customização e adereços de cabeça em vez de fantasias completas ou gorros simples (que caíram 40%). Há espaço para premiumização nestas categorias.

2. Insumos para carros alegóricos:

O aumento de 13% em flores artificiais e adornos estruturais valida a manutenção dos investimentos em desfiles de grande porte, mantendo a demanda por fornecedores de alta escala no Sudeste.

3. Riscos e mitigação:

Gargalo logístico: A dependência do Porto de Itajaí (crescimento de 72%) como porta de entrada cria um risco de “custo Brasil” elevado no transporte terrestre até o Sudeste e Nordeste. Recomenda-se avaliar a viabilidade de cabotagem para o abastecimento de hubs como Salvador e Suape, visando mitigar os custos de frete rodoviário que impactam o preço final.

Desabastecimento regional: A queda nas importações diretas no Norte (-19%) e Nordeste (-63%) sugere que estas regiões estão operando com estoques “just-in-time” providos por redistribuidores. Atrasos na malha logística de São Paulo/Rio podem comprometer eventos críticos como o Festival de Parintins ou o Carnaval de Salvador.



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