A aprovação definitiva do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, consolidada em janeiro de 2026, encerra um ciclo de 26 anos de negociações e inaugura uma das maiores áreas de livre comércio do globo.
Com um mercado de 720 milhões de pessoas e um PIB combinado superior a US$22 trilhões, o pacto redefine as diretrizes do comércio exterior brasileiro para a próxima década.
Embora o acordo tenha entrado em sua fase de internalização e implementação técnica, os seus efeitos já são determinantes para o planejamento estratégico e a reconfiguração das Cadeias Globais de Valor (GVCs).
O impacto é estratégico: ganhos imediatos de escala para o agronegócio e uma janela crítica de modernização para a indústria nacional, com destaque para o setor químico-farmacêutico.
Sobre o acordo
Em 17 de janeiro de 2026, a União Europeia e o Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) assinaram formalmente um acordo de livre comércio histórico—o mais significativo na história da UE e produto de mais de 25 anos de negociações.
O acordo elimina tarifas sobre 91% das exportações Mercosul para a UE em 12 anos e 95% das exportações UE para Mercosul em até 15 anos. Tarifas zero passam a ser aplicadas de forma prioritária e, em alguns casos, imediatas a químicos, farmacêuticos, máquinas e outros produtos industriais.
Os dados consolidados de 2025 demonstram que o Brasil encerrou o ano com um recorde histórico na sua corrente de comércio, atingindo US$629,1 bilhões.
No entanto, a relação com o bloco europeu apresenta um cenário de leve déficit comercial que reforça a urgência de ganhos de eficiência tarifária:
Importações para a UE (FOB): US$50,2 bilhões (+6,0% vs 2024).
A indústria da transformação atua como catalisadora da inovação: a importação de máquinas e equipamentos apresentou alta de 10,4% em 2025, sinalizando um movimento de renovação tecnológica antes mesmo da plena vigência das alíquotas reduzidas.
Em 2024, de acordo com a SECEX, as exportações da União Europeia para o mundo somaram US$2,73 tri, enquanto as importações do mundo registraram US$2,91 tri.
A indústria química brasileira é o “core” da balança comercial com a Europa. Em 2025, a Alemanha consolidou-se como o principal hub de tecnologia e insumos básicos para o mercado brasileiro, sustentada por um ecossistema de mais de 700 empresas apenas do setor químico, de acordo com a Logcomex. Em relação às empresas que compraram da Alemanha em 2025, foram mais de 7 mil.
A análise do segundo semestre do ano passado revela uma migração estratégica e flutuações críticas em NCMs de alta complexidade, fundamentais para o planejamento de market share de fornecedores globais.
Segundo dados da Abiquim/MDIC, o déficit com a UE terminou 2025 em US$13,5 bilhões, evidenciando a dependência de insumos de alta tecnologia europeus.
| NCM | Descrição Resumida | País (2025) | FOB 2025 (Jul-Dez) | FOB 2024 (Jul-Dez) | Variação (%) |
| 3004.90.59 | Outros medicamentos (Pos. 2930 a 2932) | Alemanha | US$ 25,3 mi | US$ 18,3 mi | +38,01% |
| 3004.90.39 | Medicamentos (Função Amina) | Espanha* | US$ 12,6 mi | US$ 14,6 mi | -13,66% |
| 3004.90.68 | Ciclosporina A, Fluspirileno, etc. | Alemanha | US$ 1,4 mi | US$ 8 mi | -81,94% |
| 3002.12.29 | Outras frações do sangue | Dinamarca | US$ 343 mil | US$ 2,2 mi | -84,67% |
| 3002.49.99 | Vacinas, toxinas e microrganismos | França | US$ 1,2 mi | US$ 2,2 mi | -46,01% |
| 3002.15.20 | Anticorpos Monoclonais | Áustria | US$ 2,1 mi | US$ 26,5 mi | -92,05% |
| NCM | 30049099 |
| Descrição | Outros medicamentos contendo produtos para fins terapêuticos, etc, doses |
| FOB 2025 | US$ 11.876.177 |
| FOB 2024 | US$ 11.807.614 |
| Nº empresas importadoras | 63 |
| Nº fornecedores | 71 |
| Qtde operações anual (2025) | 4.990 |
| NCM | 30021590 |
| Descrição | Outros produtos imunológicos, apresentados em doses ou acondicionados para venda a retalho |
| FOB 2025 (Jul a Dez) | US$ 342,5 mi |
| FOB 2024 (Jul a Dez) | US$ 318,5 mi |
| Nº empresas importadoras | 47 |
| Nº fornecedores | 66 |
| Qtde operações anuais (2025) | 6.370 |
| NCM | 30049079 |
| Descrição | Outros medicamentos com compostos heterocíclicos, etc, em doses |
| FOB 2025 (Jul a Dez) | US$ 53,4 mi |
| FOB 2024 (Jul a Dez) | US$ 71 mi |
| Nº empresas importadoras | 43 |
| Nº fornecedores | 49 |
| Qtde operações anual (2025) | 2.860 |
| NCM | 30049069 |
| Descrição | Outros medicamentos contendo compostos heterocíclicos heteroátomos nitrogenados, em doses |
| FOB 2025 (Jul a Dez) | US$ 75 mi |
| FOB 2024 (Jul a Dez) | US$ 56,5 mi |
| Nº empresas importadoras | 42 |
| Nº fornecedores | 59 |
| Qtde operações anual (2025) | 3.820 |
Outras NCMs
| NCM | 30049059 |
| Descrição | Outros medicamentos contendo produtos das posições 2930 a 2932, etc, em doses |
| FOB 2025 (Jul a Dez) | US$ 25,3 mi |
| FOB 2024 (Jul a Dez) | US$ 18,3 mi |
| NCM | 30049039 |
| Descrição | Outros medicam.c/compostos de função amina, etc, em doses |
| FOB 2025 (Jul a Dez) | US$ 12,6 mi |
| FOB 2024 (Jul a Dez) | US$ 14,6 mi |
| NCM | 30049068 |
| Descrição | Medicamento contendo ciclosporina a, fluspirileno, etc, em doses |
| FOB 2025 (Jul a Dez) | US$ 1,4 mi |
| FOB 2024 (Jul a Dez) | US$ 8 mi |
| NCM | 30021229 |
| Descrição | Outras frações do sangue, exceto as preparadas como medicamentos |
| FOB 2025 (Jul a Dez) | US$ 343 mil |
| FOB 2024 (Jul a Dez) | US$ 2,2 mi |
| NCM | 30024999 |
| Descrição | Outras vacinas, toxinas, culturas de microrganismos (exceto leveduras) e produtos semelhantes, não classificados em códigos anteriores |
| FOB 2025 (Jul a Dez) | US$ 1,2 mi |
| FOB 2024 (Jul a Dez) | US$ 2,2 mi |
| NCM | 30021520 |
| Descrição | Basiliximab (DCI); bevacizumab (DCI); daclizumab (DCI); etanercept (DCI); gemtuzumab ozogamicin (DCI); oprelvekin (DCI); rituximab (DCI); trastuzumab (DCI) |
| FOB 2025 (Jul a Dez) | US$ 2,1 mi |
| FOB 2024 (Jul a Dez) | US$ 26,5 mi |
Para a indústria química global, o acordo do Mercosul com a UE representa um realinhamento estrutural com implicações profundas para acesso a mercados, dinâmica competitiva, resiliência de cadeias de suprimentos e equilíbrio geopolítico na produção química.
A exportação brasileira também projeta um salto de competitividade. Atualmente, 73% das vendas para o bloco concentram-se em cinco destinos: Países Baixos (US$11,7 bi), Espanha (US$8,8 bi), Alemanha (US$6,5 bi), Itália (US$5,3 bi) e Bélgica (US$4 bi).
Previsão Acordo Mercosul-UE: Eliminação gradual de tarifas para a maioria dos produtos; eliminação imediata de tarifas para parte dos produtos; cotas tarifárias para parte dos produtos.
Os estados que lideram o fornecimento para a UE em volume absoluto são:
Contudo, em termos de dependência estratégica (participação da UE no total exportado pelo estado), o bloco é vital para:
Sergipe: 51,8%
Amapá: 36,9%
Paraíba: 30,8%
Rio Grande do Norte: 22,3%
Amazonas: 21,3%
É fundamental o gerenciamento de expectativas e a construção de planos estratégicos para a captura das oportunidades que o acordo trará às empresas brasileiras.
O cronograma de desgravação seguirá prazos faseados (em alguns casos, até 10 ou 15 anos). Mapear quais NCMs do seu portfólio possuem desoneração acelerada é vital para o fluxo de caixa.
Além disso, é importante realizar o mapeamento de quais NCMs com as desonerações podem tornar-se mais atraentes, seja por começar a ter valores mais competitivos no mercado e devem começar a ser importadas, seja para mudança e desenvolvimento de novos fornecedores europeus.
De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, os cronogramas já detalham essas janelas de oportunidade.
O acordo estabelece regras rigorosas de propriedade intelectual e sustentabilidade. A harmonização com padrões europeus (como a EMA) torna-se, a partir de agora, um requisito para acesso a crédito verde e novos mercados.
O acordo Mercosul-União Europeia não deve ser lido apenas como uma redução de alíquotas, mas como um catalisador de transformação estrutural.
Os dados de 2025 já sinalizam que a integração operacional precede a burocrática: a análise profunda do eixo tecnológico alemão no setor químico e a consolidação de hubs de exportação no Brasil exigem planejamento estratégico.
Para empresas que buscam liderança na nova economia transatlântica, a estratégia deve basear-se em três pilares:
Arbitragem tarifária e recálculo de Landed Cost
A desgravação gradual exige uma revisão profunda do planejamento tributário. É imperativo mapear o pipeline de importação de bens de capital e insumos químicos para alinhar janelas de investimento (CAPEX) aos marcos de redução tarifária, otimizando o fluxo de caixa de longo prazo.
Resiliência e Dual Sourcing
A facilitação comercial com a Europa oferece uma oportunidade crítica para reduzir a exposição à volatilidade logística asiática.
Reavaliar o sourcing de NCMs complexas (como as de função amina e anticorpos monoclonais) a partir de fornecedores europeus pode elevar a qualidade técnica e a segurança jurídica da cadeia de suprimentos.
ESG como passaporte de mercado
O acordo eleva o patamar de exigência regulatória. A conformidade com os padrões de sustentabilidade e segurança química da UE deixará de ser um diferencial para tornar-se um requisito de acesso.
Empresas que anteciparem a harmonização de seus processos com as diretrizes europeias garantirão não apenas mercado, mas acesso prioritário a linhas de crédito verde e financiamentos internacionais.
Em suma, o sucesso neste novo mapa da competitividade não será determinado por quem paga menos imposto, mas por quem demonstra maior agilidade em reconfigurar suas cadeias globais e modernizar sua base tecnológica frente aos novos padrões globais de eficiência.